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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Sabedoria popular - um post com dedicatória

Sérgio Lavos, 28.05.12

"À espera dos comentários do professor Marcelo, lá papo uma reportagem da TVI sobre a educação d'antanho. Vinte ou trinta carquejas com o diploma da quarta classe recitam títulos das obras de el rey Duarte e feitos da dona Barbuda de Guimarães. O subtexto da coisa é cristalino: os meninos antigamente sabiam mais que os doutores agora, e tal.

 

Esta entronização da parolice é a moda da saison desde que o ministro Crato decidiu apresentar às criancinhas as virtudes da lavoura. Pouco importa que os jovens de 2012 saibam programar em PHP e JavaScript, que conheçam países sem entrarem neles a salto e dominem razoavelmente o inglês: para milhões de pategos lusitanos, muitos deles atarantados com os comandos da TV, a única educação que presta é a de Oliveira Salazar.

 

E isto seria apenas grave, se alguns não estivessem no Governo."

 

Luís M. Jorge.

O Síndrome de Aterragem na Portela

Sérgio Lavos, 04.03.12

 

A expressão que Joana Lopes usou no Facebook não poderia estar mais próxima daquele sentimento que a maior parte dos portugueses sente ao regressar a casa depois de uma visita a um país mais avançado - e cada vez são mais.

 

A mim aconteceu-me há uns anos, depois de uma viagem a Berlim (sim, a capital do mal). O avião aterrou às 20h00, mas depois estive à espera cerca de uma hora e meia pela bagagem; a demora habitual no maior aeroporto do país, pior do que em qualquer outro aeroporto por onde eu tenha passado, incluindo por exemplo Istambul. Enfim, sabemos que esta demora se deve à desorganização provocada pelo facto de haver duas empresas de handling a tratar da logística num aeroporto de médias dimensões, como é o caso da Portela. Um exemplo claro da norma neste país: um serviço que poderia ser feito apenas por uma empresa é entregue a um privado e tudo piora. Dizem-me que entretanto as coisas melhoraram - não viajo há algum tempo, que a crise toca a todos menos a empresas amigas do Governo e a jotinhas -, mas durante alguns anos o sucedido a mim era regra. Mas a hora e meia de espera seria o menos. Ao sair do aeroporto, e depois de fugir da fila de abutres taxistas que dão as boas vindas aos visitantes da cidade, fui para a paragem de autocarro ali perto, esperando por um transporte que me levasse à Gare do Oriente. Enquanto pensava no absurdo que era não haver ligação de Metro ao único aeroporto da cidade - o lobby dos taxistas é poderoso, sabemos e nunca ninguém teve a vontade de lhe fazer frente, em quarenta anos de Metro e de Portela -, esperei. E esperei. E esperei. Ao fim de algum tempo, percebi que já não havia o autocarro para a Gare do Oriente. A maior estação de comboios nacional, a partir das 21h30, não tem ligação regular ao aeroporto. A única maneira de lá chegar é pagando a um táxi que, se correr tudo bem, "apenas" dará uma volta pelo Campo Pequeno para nos levar ao Oriente. Ainda pensei voltar ao terminal e apanhar o tal táxi, mas estava tão furioso que decidi começar a caminhar em direcção à Gare do Oriente, na esperança de que passasse um táxi pela Avenida que atravessa os Olivais. Enquanto vou e não vou já seriam umas 22h00 e tinham-se passado duas horas desde que as rodas do avião haviam tocado a pista. 

 

Quem conhece Berlim sabe do que falo: um sistema de transportes sem nada a apontar, plena articulação entre os vários meios - metro, comboio e autocarros - pouco ou nenhum tempo de espera, transportes públicos toda a noite e, claro, ligação directa - comboio - aos dois aeroportos da cidade, a qualquer hora do dia*. Três milhões e meio de pessoas vivem na Grande Berlim, mais de três vezes a população de Lisboa. Mas pouca confusão se vê, mesmo em hora de ponta. Há milhares de berlinenses que vão de bicicleta para o trabalho - e é claro que para isso foram construídos milhares de quilómetros de ciclovias por toda a cidade. O planeamento urbano não é apenas o nome de um departamento municipal que serve para colocar amigos e boys do partido - ele existe e torna a cidade apetecível tanto para viver como para visitar. Se há alguma coisa que me tenha incomodado em Berlim foi o rigor e a disciplina, a sensação de constragimento emocional que muitos alemães pareciam indiciar - num dos almoços, restaurante do centro, fiquei sentado ao lado de uma família alemã - pai, mãe, filho e filha, entre os oito e dez anos - e durante toda a refeição o silêncio reinou. Pai e mãe trocaram apenas palavras de circunstância, os filhos mantiveram-se calados e obedientes. Bizarro, para os nossos padrões. Ainda assim, trocaria de bom grado parte da alegria de viver e da algazarra latina por alguma ordem germânica.

 

E entretanto, Lisboa, e o compadrio, e o poder dos lobbies, e o total desinteresse pelas necessidades dos utentes, isto é, dos contribuintes que pagam para um serviço que é mau. Acabei por apanhar um táxi, e depois esperei quase uma hora na Gare do Oriente - esse monumento à gripe e aos resfriados construído por um espanhol pago a peso de ouro - pelo comboio que me convinha. Estes tempos mortos provocados pelo mau funcionamento geral do país - as repartições públicas são outro exemplo sintomático - pelo menos obrigam-nos a reflectir nestas diferenças, e na distância, cada vez maior, que nos separa dos países mais, vá lá, civilizados. O país é o espelho do que somos? Se somos o povo que vota maioritariamente nestes políticos que nos governam, então será mesmo. O Síndrome da Aterragem na Portela é sobretudo a sensação de regresso a uma realidade má, cada vez pior, e sem qualquer garantia de mudança. Os mansos que votam em tansos merecem todo o mal que lhes acontece. Mas eu, lamento, não.

 

*O aeroporto de Tegel não tem ligação directa de comboio, mas sim de autocarro. Obrigado ao comentador pela correcção. Entretanto, um novo aeroporto irá ser inaugurado em Junho deste ano, aproveitando parte das infraestruturas do aeroporto de Schönefeld. Quando isso acontecer, Tegel encerrará e passará a existir apenas um aeroporto a servir a capital alemã.

Uma super-girl para todas as estações

Sérgio Lavos, 22.11.11

 

Passados três meses, a super-assessora do super-ministério do Álvaro é afastada por não estar a conseguir passar a mensagem do ministro. O seu nome: Maria de Lurdes Vale, antiga jornalista do DN (e autora de várias pérolas jornalísticas, entre as quais uma entrevista ao seu futuro patrão Álvaro). Mas a promiscuidade não fica por aqui; ainda não tinha arrefecido o lugar que ela ocupava no gabinete ministerial e já transitava para a administração do Instituto de Turismo de Portugal, um organismo público que pertence à rede de interesses que serve os boys dos partidos do "arco da governação". Nada mal. De um precário emprego na redacção de um jornal em acentuada quebra de vendas para uma super-assessoria de 5 000 euros, e daí directamente para o conselho de administração de uma empresa pública. Um percurso notável - porém, longe de ser caso único. Quem poderá duvidar das capacidades comunicativas e dos conhecimentos na área do Turismo desta super-girl para todas as estações?

Bons exemplos

Sérgio Lavos, 13.10.11

 

A história repete-se. Como aconteceu com Avelino Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro. Como continua a acontecer com o intocável Alberto João Jardim, cuja vitória foi parabenizada por idiotas úteis da direita, habitualmente histéricos ao mínimo desvio da esquerda. Isaltino Morais, o autarca condenado e reeleito em Oeiras, depois de o último recurso interposto pelos seus advogados ter sido recusado unanimemente pelos juízes do Tribunal Constitucional, continua a bater com a mão no peito, clamando inocência. Os ingénuos e os cínicos podem dizer que está no seu direito; mas a verdade é que ele continua a persistir porque o exemplo dos seus antecessores criou um precedente. Mas atenção, o precendente não está no clamor de injustiça; está na sensação, que todos estes políticos devem ter, de que o que lhes está a acontecer é uma anormalidade inominável. Pudera, afirmo eu: se é prática comum nas autarquias deste país o jogo de interesses, os benefícios em troca de favores, a corrupção, por que razão apenas foram alguns julgados e incriminados?

 

O sentimento de impunidade de que estes autarcas gozam nasce da impunidade de facto que grassa no país. Quem já lidou com processos que envolvem autorizações de Câmaras ou Juntas de Freguesia sabe como as coisas funcionam. Em pequena escala, mas também em grande escala. Toda a gente sabe, mas ninguém se importa. Tornou-se habitual, normal, a regra. Não estamos assim tão longe do México - por cá, a corrupção institucionalizou-se. E quem poderia mudar este estado de coisas - sim, somos nós, que votamos em quem nos governa - está-se, positivamente, nas tintas. A vox populi é corrente: "vota-se no autarca pela obra feita - e se ele conseguiu sacar algum, tanto pior, eu faria o mesmo". O exemplo parte de cima e estende-se ao resto da população; a economia paralela tem, segundo estudos recentes, um peso enorme nas contas do país. Da factura que não se passa (nem se pede) à descarada fuga aos impostos, são poucos os que podem afirmar ter sido sempre honestos. A regra, lá está, é a desonestidade. E depois queremos ter os mesmo hábitos dos ricos povos do norte... se o crime é socialmente aceite, como poderemos nós alguma vez chegar aos níveis de vida que esses países ostentam?

 

Isaltino Morais não é mais, nem menos, do que a média nacional. Por isso, tem todo o direito de esbracejar, chorar, gritar até que a voz lhe doa. Estamos a navegar há muito em águas turvas, o habitat natural de vermes e outras criaturas das profundezas.

Um pé no Portugal profundo, outro no império da Lusomundo

Miguel Cardina, 26.08.11

 

O jornal i e o Diário de Notícias fazem o favor de chegar à província coimbrã mas regem-se por uma lógica insondável na geografia dos cinemas publicitados. O primeiro indica os filmes em cartaz em Lisboa e no Porto; o segundo opta pela zona de Lisboa, margem sul e algum Algarve. Fora disso não parece haver senão paisagem e umas festas ocasionais onde talvez se recorra a um velho animatógrafo. E, claro, gente que compra jornais, disso não há dúvidas, mas que os usa sobretudo para forrar gavetas ou proteger o solo de tintas e humidades. Valha-me então o Público para perceber que «Autobiografia de Nicolae Ceausescu» ainda não está em exibição em qualquer uma das salas do ZON Lusomundo Dolce Vita e do ZON Lusomundo Fórum, as únicas com programação regular em Coimbra. Assim de repente, senti-me como se me quisessem pôr a viver com um pé no Portugal profundo e outro no império da Lusomundo.

Medina Carreira no seu esplendor

Sérgio Lavos, 25.08.11

 

"Aumentar o IRS dos mais ricos é um disparate." Estranho seria se um dos principais representantes do catastrófico sistema bicéfalo que governa Portugal, o alucinado profeta do apocalipse luso, não achasse isto. Disparate não será com certeza aumentar o IVA de bens essenciais, cortar para metade o subsídio de Natal e reduzir as verbas para atribuição de subsídios da Segurança Social. É preciso cortar na despesa, pois claro. Mas deixar os ricos em paz, são eles que sustentam a alternância do centrão que levou o país à bancarrota.

Concorrência para o grande Eurico A. Cebolo

Sérgio Lavos, 11.07.11

 

A capa do livro de Henry Thoureau é um atentado ao bom gosto. Sem dúvida. Mas é um atentado ao bom gosto porque é uma capa sexista. E é sexista porque usa um corpo seminu para vender um produto que nada tem a ver com a imagem. Não há qualquer relação entre o conteúdo do livro e a sua capa.  Perto disto, as míticas capas dos livros de Eurico Cebolo são de um primor estético que evoca os mestres renascentistas, até porque a relação capa/conteúdo não é, de todo, descabida. Portanto, o mau gosto, no caso de A Arte de Caminhar, tem uma dupla natureza: mau gosto estético e mau gosto ético. Resumindo, uma boçalidade. Tão simples quanto isto. 

Mais do mesmo

Sérgio Lavos, 09.05.11

Não sei se terá sido boa ideia seguir a convenção do BE através das gordas do Público on-line e da sempre equilibrada cobertura do Renato Teixeira, esse grande estudioso do fenómeno Bloco de Esquerda para esta segunda década do século, no 5 Dias, mas do que perdi não reza a história, nem a deste fim-de-semana nem a das eleições que se aproximam. A verdade cruel da queda nas sondagens não desmente as palavras dos seus líderes, mas convenhamos que pedir votos ao centro e à direita me parece prenhe de um patético wishfull thinking que nem a busca de parangonas desculpa. Também não sei o que será o "extremismo radical" de que fala Louçã; referir-se-à ele aos cartazes com ovelhas negras que eram colados nas paredes de Lisboa em meados da década passada? O caminho para o centro - parece ser esse - terá de se fazer sacrificando uns quantos anciões cordeiros, percebi bem? E onde espera o BE ir conquistar votos, ao volátil povo que tanto se lhe dá votar PS ou PSD, comprovando o chavão da esquerda de que estes são partidos sem diferenças? Certamente não aos leitores do CDS, que de tropeção em tropeção de Passos Coelho lá vai trepando em direcção a uma futura e novamente respeitável coligação, reeditando a união nacional magicada pela saudosa dupla Santana-Portas, que tanto deu ao país. Para dizer a verdade, ao currículo de Passos Coelho falta uma passagem pelo comentário televisivo, mas seguramente que a sua destreza na feitura de farófias e outras iguarias doces compensa esta ausência. Até porque de ideias, estamos conversados, e gosto de imaginar os cabelos arrepiados da classe média de crédito estourado ao ouvir o líder do partido da laranja afirmando que, seriamente dado que ele é um homem sério, seriíssimo, as medidas do trio FMI não são suficientemente penalizadoras e que ainda irá mais longe do que os bondosos samaritanos da troika, privatizando até à última réstia de empresa estatal, depenando definitivamente as empresas públicas que ainda vão alimentando os cofres do Estado, a CGD e a TAP. E a RTP, claro, não esquecer, que isso de ter uma estação pública deverá ser luxo apenas dos outros, incluindo o berço do capitalismo, os EUA. Pormenores. Ideias peregrinas não faltam certamente a Coelho e à sua trupe, e sempre insistindo na panaceia da manutenção dos impostos. Haverá capelas com mais fiéis onde ir pregar, mas convenhamos que é preciso concorrer com as medidas para tornar a economia competitiva propostas pelo PS; se estes baixam o IVA do golfe e aceleram a destruição dos serviços do estado, Coelho salta mais longe, e sonha com um país dominado pela selvageria do ultraliberalismo económico. Um utópico.

 

O problema é que a contramão perigosa por onde conduzimos parece ser, por vontade da única alternativa que nos resta - uma viragem à esquerda - o caminho provável. No limite, é verdade que ser retirada a responsabilidade de governação aos nossos políticos, apesar da lamentável perda de soberania, é uma solução com o seu quê de interessante. E como ninguém parece muito interessado em bater o pé a quem manda verdadeiramente no país, animemo-nos: a diversão da viagem está mais do que garantida.

Contra a reacção

Sérgio Lavos, 06.03.11

 

Fez-se história. Dezenas de anos depois, uma música com suficiente interesse ganhou o Festival da Canção e irá representar a pátria - ah, que gozo dá escrever isto - lá fora. Para cúmulo, no país de Merkel, o foco de todas as desgraças lusas. Para mais, a vitória foi conseguida graças ao voto dos espectadores, que contrariou o voto dos "especialistas" que tinham escolhido mais mais uma canção abaixo de cão, a caminho dos últimos lugares do Festival da Eurovisão (sim, eu de vez em quando espreito o festival). Poder-se-à dizer que o Festival da Eurovisão é o grau zero da música. Certo, e a realidade não desmente esta impressão. Mas entre a mediocridade enfatuada dos habituais, a parvoíce das péssimas letras - sempre à volta da ideia do "amor", ou da "alma lusa", ou do "fado" - e a pobreza mais do que franciscana das composições, e a mediania irónica da canção dos Homens da Luta, como não escolher a segunda? O maior feito desta dupla de humoristas foi ter dinamitado uma instituição da incompetência pátria, o nacional-cançonetismo, instituição muito mais do que simbólica (em tanta participação, o melhor que conseguimos foi para aí um 8.º lugar), no seu próprio terreno; a música dos Homens da Luta é primeiro um pastiche da música de intervenção - e por isto há muita gente de esquerda que não gosta deles -, mas o happening em que se tornou a sua participação no festival - as referências ao castiço nacional, as caricaturas do "povo", e depois a reacção do público à sua vitória, devidamente enfatizada pelo discurso de Jel - fez com que o acontecimento fosse uma inteligente desconstrução de algo perfeitamente anacrónico. Como não preferir a caricatura voluntária à involuntária? Os trabalhadores postiços às mulheres das sete saias da primeira canção?

 

Outro feito dos Homens da Luta foi terem conseguido que gente que poderia sentir-se ofendida com a caricatura se tenha de imediato colado a esta pequena vitória; na hora em que se contam espingardas contra o Governo, tudo conta (é espreitar o 5 Dias, para se confirmar). Por outro lado, a caixa de ressonância do Governo na blogosfera rapidamente veio anunciar o nojo que sente perante tal ofensa - ao Governo, presumo. Ah! Ah! Não me divertia tanto há algum tempo, confesso. E a procissão ainda vai no adro, a caminho da Alemanha. A luta é mesmo alegria.