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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Olhar à esquerda

Miguel Cardina, 24.01.11

 

Perdemos. A esquerda perdeu. Manuel Alegre, em primeiro lugar, não conseguindo sequer igualar a marca de há cinco anos. Francisco Lopes também teve um resultado negativo, com menos cerca de 140.000 votos do que os que teve Jerónimo de Sousa em 2005. Cavaco foi capaz de federar a direita e o centro com uma campanha feita de silêncios e que não teve pejo em recorrer à pressão dos "mercados financeiros" para chantagear a democracia. A campanha de Alegre teve clareza na defesa do Estado Social, na denúncia dos ataques aos "de baixo" e na recusa da intervenção do FMI, mas sofreu nas urnas com o facto de também ser apoiada pelo partido do governo, que tem vindo a aplicar as medidas de austeridade com o apoio do PSD. Se alguma coisa tem de bom o resultado destas eleições, é que nos lembra a dificuldade do combate que temos pela frente. Perdeu-se uma batalha, a luta continua.

Votar

Sérgio Lavos, 21.01.11

 

Os estudos de opinião que têm sido publicados não conseguem prever com exactidão a percentagem de abstenção para a eleição presidencial. No entanto, espera-se que seja alta. Hoje, no Público, é perguntado a várias personalidades o que acharam da campanha e se esta mudou o seu sentido de voto. Há duas correntes: os que vão votar mas insistem na pobreza da campanha; e os que não vão votar, abraçando o niilismo abstencionista por entre a amargura (Vasco Pulido Valente) e a desilusão (José Gil). São escolhas. No fim de contas, esta vai ser apenas mais uma eleição, para um cargo que confere um poder mais simbólico do que real, e seria difícil encontrar melhor ocasião para expressar descontentamento em relação à situação política actual. Mas será esta apenas mais uma eleição? Vejamos: a crise em que o país se encontra mergulhado; a pressão internacional para que sejam tomadas medidas de austeridade duríssimas; a descredibilização do Governo que foi eleito há menos de um ano. Neste panorama, grande parte da esquerda decidiu enveredar pelo apelo à abstenção, chegando muitos a mostrar mais empenhamento do que mostrariam caso tivessem um candidato em quem votar. Seria comovente, este empenhamento, se não fosse pateticamente sectarista. Todo e qualquer voto é sempre um voto útil. Um voto esclarecido é um voto que encontrou defeitos num candidato ou num partido, mas acaba por se decidir pelo menor dos males. Aquele que tenha lido o programa de um candidato ou de um partido a qualquer eleição e concorde com tudo, do princípio ao fim, que atire a primeira pedra. Não há unanimidades (sim, a unanimidade, como disse o grande reaccionário Nelson Rodrigues, é burra) nem gente perfeita; e concedo que um político, qualquer que seja ele, é ainda menos perfeito. Da mesma maneira, a decisão de não ir depositar o voto na urna pode ser tão útil como o voto no candidato - discordando de todos os candidatos, o abstencionista deixa-se ficar no calor da decisão abstencionista (na realidade, uma não-decisão), renegando o maior bem que uma democracia tem para oferecer: o voto. Um abstencionista - acreditem que sei do que falo, passei por cima de muita eleição - encontra conforto em várias coisas - na atitude de protesto, no gesto que julga de combate, na crença de que o voto é na verdade ilusório, e que nada poderá mudar. Mas a verdade é que, na maior parte das vezes, o único real conforto é o que sente ao não sair de casa, ao preferir ir à praia, o conforto burguês de quem delega nos outros decisões que devem passar por todos. Claro que há aquela minoria que diz ser contra este sistema; estão no seu direito de não votar, embora eu ache que, nesse caso, seria mais coerente a recusa da cidadania e de todas as benesses que esta traz. Uma vez mais, o conforto fala mais alto; e é muito fácil para o ser humano convencer-se de que tudo o que faz está correcto - está nos tomos de psicologia. Mesmo que o bom senso indique precisamente o contrário.

 

O único voto de protesto coerente é o voto em branco - e o nulo anda muito perto. Quem vota em branco aceitará o sistema político do país onde vive - caso contrário pediria a recusa de nacionalidade - mas recusa os candidatos ou partidos que vão a concurso. Uma escolha deste tipo seria, claro, o menor dos males. O votante em branco não se interessa por quem o governa ou preside ao país, é-lhe indiferente. E por isso tem de aceitar qualquer decisão que o poder tome. Para que não possa ser acusado de incoerência. O voto de protesto é coerente, mas será sensato? E até que ponto é produtivo?

 

O outro caminho que resta - o voto num dos candidatos - é tão útil como o voto em branco ou o voto nulo (mas mais sensato do que a abstenção, porque menos hipócrita). Não há políticos heróis, porque o herói apenas nasce quando o Homem morre. Mas a utilidade do voto reside noutra coisa: o que será melhor, no momento em que votamos, para as nossas vidas? Regressando a estas eleições, recordemos o que está em causa: a reeleição de um candidato que baseou toda a sua imagem numa pose de estadista credível, sério, competente e honesto. Cavaco, durante anos, alimentou esta imagem, viveu disto. Daí os seus silêncios, as suas ausências. A imagem de Cavaco, construída fora de palco, dependeu sempre da bondade da comunicação social. Nunca foi escrutinado, questionado, pressionado. Os seus apaniguados, presentes em todos os palanques mediáticos, foram criando uma aura mítica à sua volta, enquanto os seus amigos iam preenchendo lugares em organismos públicos, fundando empresas que bebiam da teta estatal, criando grupos económicos tão poderosos que se tornaram imunes ao poder político. E claro, os amigos mais próximos, os do coração, entretiveram-se a fundar um banco, o BPN, que serviu sobretudo para o rápido enriquecimento deles próprios. E Cavaco, na sombra de um interregno na política, foi também beneficiando deste banco laranja, sem que nunca fosse posta em causa a tal imagem séria construída ao longo de anos. Nesta campanha, tudo parece ter desabado. Por isso, é natural que a clique cavaquista que colonizou os painéis do comentarismo televisivo e jornalesco ache que foi muito fraca, a campanha. A táctica de desvalorizar o que é verdadeiramente importante numa eleição onde, não se esqueça, vamos votar numa pessoa, e não num programa partidário, vem em todas as sebentas. Para que quem vota não se interesse, concorde, não pense na importância do simples gesto de votar.

 

O que aí vem - o embate das medidas de austeridade que toda a gente vai sentir - é demasiado grave para o alheamento. O que aí pode vir - a eventual vitória de Cavaco; a provável dissolução da Assembleia; a possível vitória do PSD nas legislativas; Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro - é a concretização do mais perfeito sonho molhado da direita liberal do nossa país: medidas de austeridade ainda mais duras; o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, num processo regressivo que imitará o que sucedeu recentemente nos EUA, mas no sentido contrário; a prometida (ameaçada?) revisão constitucional, o que significará a derrota definitiva dos ideais de Abril; uma revisão laboral que penalizará ainda mais os trabalhadores, caminhando para a flexibilização total do mercado de trabalho, de modo a que a economia possa competir com os países emergentes, o que na prática representará uma regressão de quarenta anos; a privatização de todas as empresas públicas que ainda existem, com tudo o que isto tem de penalizante, tanto para a economia do país como para todos os cidadãos. Poderá ser de outra maneira? A única via de saída, sinceramente, será que não aconteça a tal tríade perigosa que Sá-Carneiro sonhou para o seu PPD: uma maioria, um governo, um presidente. E podemos começar por não eleger Cavaco, o patrocinador do rumo errado, omnipresente na luz ou na sombra, que o país levou nos últimos vinte anos. Votar, claro, é o mais poderoso instrumento que temos para evitar esta derrocada. Afinal, será muito mais cómodo para todos ir depositar o voto.

 

- A imagem é, claro, de Gui Castro Felga -

Agonia

Sérgio Lavos, 20.01.11

 

E o tema da campanha de Cavaco, a dois dias do fim, tornou-se a sua própria reeleição. De um momento para o outro, o candidato que mais gastou na campanha, o presidente mais despesista de sempre, começou a preocupar-se com a crise e com o erário público. Esquecidos estão os outros temas prementes que foram sendo lançados: a ameaça do "extremismo", a redução de salários no privado, o financiamento público do ensino privado. Agora, o que interessa, é ser reeleito já no Domingo. Claro que a preocupação de Cavaco são os gastos eleitorais; não é a queda acentuada nas sondagens - mesmo a miraculosa sondagem da Marktest, realizada com grande empenho no Interior Norte, mostra uma derrapagem de 14% em relação à anterior; não é a reiterada ausência de propostas sérias; não é o discurso desconexo nem o enfileirar de gaffes ao longo do último mês (a ponto de ter proibido filmagens dos jantares de campanha); nem sequer a degradação da imagem de político "sério, honesto, vertical, franco, decente" (e no entanto, há ainda quem escreva isto levando-se a sério). Não, claro.

 

No fundo, o que Cavaco quer é que chegue ao fim a agonia da campanha que tem mostrado à saciedade a verdadeira essência do político bartleby, o político que é apenas competente enquanto nada faz e honesto quando nada diz. De soluço em soluço, Cavaco reza para que ainda haja portugueses que o elejam à primeira volta porque não sabe o que pode acontecer com mais três semanas de campanha. Há quem diga que o silêncio é mais sábio que o ruído. No caso de Cavaco, o silêncio sempre lhe serviu de máscara para o vazio. De cada vez que fala, revela-se. A política é de facto uma chatice.

O que está em causa no dia 23

Miguel Cardina, 18.01.11

Imagem de Gui Castro Felga

 

Cavaco sabe que de cada vez que abre a boca perde votos. Os últimos dias de campanha têm sido claros a esse respeito. Daí que se perceba de certa maneira esta fuga a uma entrevista à Antena 1. Pressentindo a possibilidade de uma segunda volta, o candidato do PSD e do PP tem vindo a dramatizar crescentemente o tom da campanha. Uma estratégia que se tem desenvolvido em torno de dois planos distintos mas convergentes.

 

O primeiro é o recurso à vitimização, próprio de quem se julga desobrigado de qualquer tipo de exame público. Ficámos sem perceber porque Cavaco comprou acções ao preço que só Oliveira e Costa podia comprar. Ficámos a saber que Cavaco passa férias com os homens fortes do BPN, entre os quais Oliveira e Costa e Francisco Fantasia, numa casa da qual não se recorda onde e quando fez a escritura. A esse escrutínio de amizades nebulosas tecidas em contexto político Cavaco chama "ataques de vil baixeza". Felizmente, neste caso da Aldeia da Coelha, Cavaco Silva já afirmou que dia 23 de Janeiro lerá as notícias e dará explicações. Aí está um motivo adicional para o país querer um segunda volta.

 

O segundo eixo da estratégia do candidato da direita passa pelo recurso continuado a afirmações de teor populista. O episódio recente em torno da pensão da sua mulher é revelador, tal como antes já havia sido revelador o apoio sonoro à campanha das sobras dos restaurantes ou o discurso de esmoler em Almada. Abordado por uma senhora que se queixava da sua parca reforma, Cavaco apontou para a mulher, referiu a sua pensão de 800 euros e informou que é ele que a sustenta. Os jornalistas esqueceram-se de perguntar à senhora qual o valor que mensalmente auferia, para que pudesse haver comparação. E também de aferir o estranho percurso contributivo da "mísera" professora universitária que ao fim de uma vida de descontos possui apenas aquele estipêndio. Cavaco, o homem que nesse dia elogiou o "povo simples" e dele disse fazer parte, esqueceu-se que o salário médio em Portugal não chega a esse valor e que um milhão e meio de pensionistas sobrevive com menos de 450 euros.

 

Este exercício de confronto entre o discurso e a realidade pode multiplicar-se e os seus resultados são esclarecedores. Assim, Cavaco, o homem que era primeiro-ministro quando ocorreram as célebres cargas policiais a estudantes, operários e utentes da Ponte 25 de Abril, e que se calou durante as manifestações de professores em 2008, incita agora os jovens a virem para a rua defender a "sua escola". Cavaco, o homem que tranquilizou a embaixada norte-americana quanto à "suavidade" da comunicação social portuguesa, fala em comício de uma suposta ausência de imagens sobre a sua campanha. Cavaco, o homem que anseia jurar a Constituição, tem palavras dúbias no seu manifesto eleitoral sobre o Serviço Nacional de Saúde. Cavaco, o homem que se vangloria de ter servido como intermediário do acordo PS / PSD para aprovação das medidas de austeridade, critica agora o esforço isolado imposto aos funcionários públicos, deixando no ar um silêncio subtil sobre a vontade de expandir os cortes salariais ao sector privado.

 

Mas o que está em causa no dia 23 não é apenas a necessidade de derrotar nas urnas o perfil seráfico e dúplice de Cavaco. É bem mais do que isso. É o confronto entre uma visão assistencialista do papel do Estado, reverente perante os mercados e a finança, e uma visão assente no conteúdo social da democracia, que encontra substância na candidatura de Manuel Alegre. Apesar de contar com o PS na sua lista de apoios, Alegre soube afirmar uma voz própria, frequentemente crítica do rumo governamental, e mostrou-se capaz de federar a esquerda - numa primeira ou numa segunda volta - em torno desta batalha concreta para um cargo que é unipessoal. Se Cavaco ganhar à primeira volta, estaremos a abrir caminho a um novo ciclo de hegemonia da direita que - com ou sem o FMI no país para ratificar as suas opções - não se coibirá de realizar um programa político privatizador e socialmente iníquo. Se Alegre passar à segunda volta, não só tem hipóteses de vencer com o apoio dos restantes candidatos de esquerda, como estaremos melhor preparados para construir uma necessária alternativa política e social para os tempos que aí vêm.

Duas notas breves sobre credibilidade e honestidade

Sérgio Lavos, 15.01.11

 

1. É um mistério a razão para o "candidato do povo" querer criar um ministério do Mar - parece que a eleição a que concorre é para a Presidência da República, certo? E, além disso, não foi o candidato Cavaco que em tempos teve nas mãos o poder de criar esse ministério, tendo acabado por se limitar a obedecer às directivas da CEE, sem rebuço, levando ao rápido declínio da frota pesqueira e de toda a economia associada a esse recurso natural, desígnio nacional, o mar?

 

2. Por outro lado, fiquei contente por saber que algumas das medidas de austeridade, aprovadas pelo Governo mas também por um dos partidos que apoia o "candidato duplamente honesto", tão criticadas há dois dias, afinal deveriam ser estendidas aos privados. Assim sim, sabemos aquilo com que podemos contar: Cavaco presidente em segundo mandato mais um governo Passos Coelho significa ainda mais austeridade, a torto e a direito, no público e no privado. Estes esclarecimentos são sempre úteis. Para que conste.

Um homem do povo

Sérgio Lavos, 14.01.11

 

O populismo quando nasce é para todos. E Cavaco, com a queda nas sondagens, também decidiu abocanhar a sua fatia. Pena é que o tenha feito recorrendo ao, como dizê-lo, enviesamento de classe. O homem que repete 30 vezes - 30 - a palavra "povo" num discurso apoia-se num mito que está muito distante da verdade, para não dizer que se baseia na pura mentira. Nasceu em Boliqueime, é certo, mas a Cavaco certamente não interessará que seja divulgado que a sua família pertencia à pequena burguesia rural, que os seus pais viviam do comércio de frutos secos e de combustíveis e eram proprietários num tempo e lugar em que poucos o conseguiam ser. "Vir do povo", no caso de Cavaco, significa ter conseguido prosseguir os estudos com a ajuda da riqueza familiar, significa ter sido excepção, privilegiado, numa época em que poucos, na sua aldeia, o eram. Mas que isso não impeça os spin doctors que lhe escrevem as falas de continuar a cavalgar a onda populista; a imprensa suave por cá continuará a não fazer um dos seus trabalho de casa: desmontar o discurso engenhoso e oportunista do "candidato do povo".

 

- Vídeo via Provas de Contacto -

Medo

Sérgio Lavos, 09.01.11

 

Um dia na campanha de Cavaco:

 

Demagogia e hipocrisia:

 

De manhã, em Almada, ao ouvir as queixas de uma mulher que perdeu o rendimento mínimo garantido e “anda ao lixo”, Cavaco respondeu outra vez a José Sócrates que criticou quem usa a pobreza na política. “E ainda me criticam por falar na pobreza...”, exclamou.

 

Repentina falta de memória e cinismo:

 

Sócrates voltou a estar no alvo de Cavaco em Fátima. Aí, presenciou a uma vigília de pais e alunos do ensino privado e cooperativo, com velas na mão. Deu-lhes razão pelo protesto contra os cortes nos apoios do Estado, apesar de ter promulgado a lei, e confessou-se “muito preocupado”. O problema é da regulamentação, da responsabilidade do Executivo, disse.

 

A faceta "virgem ofendida" sem coragem de apontar directamente os nomes:

 

Mas essa dramatização já se pressentia no almoço-comício de Setúbal, em que o candidato a Belém criticou os “peritos da manipulação e da mentira, da calúnia e do insulto” – uma frase sem destinatário directo, mas que apontava aos adversários da esquerda e Manuel Alegre tendo como pano de fundo o caso BPN.

 

E finalmente, a fechar o dia, um regresso ao passado, um acenar de velhos fantasmas, ao melhor estilo do supra-Cavaco, António Oliveira Salazar:

 

A campanha oficial só começa hoje, mas as palavras foram duras. Muito duras. A dramatização já chegou. O Presidente da República e recandidato pediu à plateia de apoiantes que imaginasse. “O que seria de Portugal e da Presidência da República se fosse ocupada por radicais e extremistas.” E explicou por quê. “Imaginem o que seria”, o “que aconteceria se vencesse quem é contra a Europa”, numa referência implícita ao Bloco de Esquerda, que apoia Alegre, em conjunto com o PS de José Sócrates. Ou quem “insulta” quem empresta dinheiro a Portugal – uma frase mais dirigida a Alegre.

 

Este foi mais um dia na vida do candidato impoluto e honesto, o homem providencial que quer preparar o caminho para o sonho de Sá-Carneiro: uma maioria, um governo, um presidente. Mas o pesadelo, se acontecer, será sofrido por nós. Afinal, o pior ainda pode estar para vir.

 

(A itálico excertos desta notícia do Público.)

O esmoler

Miguel Cardina, 08.01.11

O candidato presidencial Cavaco Silva foi hoje abordado por uma mulher que se queixou de não ter dinheiro para alimentar o filho, a quem recomendou que procurasse "uma instituição de solidariedade que não seja do Estado".

 

Quando a situação é de socorro qualquer extintor é importante, da AMI à Linha Nacional de Emergência Social (da Segurança Social, curiosamente). Mas é reveladora esta forma de olhar o Estado como uma entidade que no fundo não serve para cuidar dos reais e pungentes problemas das pessoas. O Estado, para Cavaco, é uma "pessoa de mal", um empecilho, uma gordura social que é preciso ir removendo. E o combate contra a pobreza resume-se à lógica do extintor, fundamental mas redutora. Um presidente que não consegue perceber a relação do fenómeno da pobreza com a necessidade de mais e melhores políticas de inclusão social é um presidente que não serve. E uma sociedade como a nossa - com uma forte incidência de baixos salários, com uma taxa de desemprego a crescer, com uma gritante desigualdade de rendimentos - não ficará melhor com a sua eleição. Do que precisamos é de alguém que não tenha medo de defender o papel do Estado na promoção de políticas de igualdade e de solidariedade; não de um esmoler de vistas curtas.

 

Publicado também no Alegro Pianissimo

Rumo a um Serviço Assistencialista de Saúde?

Miguel Cardina, 07.01.11

 

Diz Cavaco Silva no seu manifesto de candidatura:

 

«O debate em torno do Serviço Nacional de Saúde não deve ser marcado por preconceitos ideológicos, de um lado e de outro. Neste domínio, mais do que questionar a existência ou não do Serviço Nacional de Saúde – algo que, verdadeiramente, não importa sequer debater -, o que interessa é discutir que formas existem para garantir a sua sustentabilidade, garantindo o acesso de todos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados de saúde.»

 

Atente-se nos bolds. Em primeiro lugar, a ideia de que o debate sobre o SNS não deve ser marcado por “preconceitos ideológicos”. Ao considerar a “ideologia” – a política, em suma – como preconceituosa, Cavaco está a revelar o modo como ele próprio a entende: enquanto tarefa de “gestão” praticada por um estrito e opaco conjunto de tecnocratas. A expressão que se segue - “de um lado e de outro” - ajuda a salientar o carácter aparentemente neutral da actividade. Como se, no fundo, o que estivesse em causa fosse traçar uma bissectriz entre duas posições extremadas e encontrar a recomendável solução intermédia. Um meio-termo a-ideológico que neste caso concreto não passa de fumaça retórica. A defesa da integridade do SNS é uma posição extremada? O outro pólo de radicalismo é o aniquilamento completo do sistema? O meio-termo exige o financiamento da oferta privada de saúde de modo a que se possa criar um sistema paralelo robusto e competitivo?

 

No fundo, Cavaco Silva sabe que a saúde está na mira do apetite privado e o apetite privado sabe que tem em Cavaco o seu representante. Só que há trabalho a fazer. Num país onde ainda persistem fortes bolsas de pobreza e insegurança, o Serviço Nacional de Saúde constitui uma das mais fortes traves de confiança das populações. Portanto, convém frisar bem que a sua existência “não importa sequer debater”. O que importa debater é a sua “sustentabilidade”. Só que Cavaco não pretende falar da suborçamentação ou do despesismo no quadro de um serviço de saúde público e universal. Pretende, isso sim, terminar com uma pirueta arriscada, sugerindo que se calibre a busca de formas de sustentabilidade com a garantia de acesso à saúde de todos “independentemente da sua condição económica". Estará Cavaco a elogiar um sistema que se propõe tratar todos os cidadãos por igual, independentemente do seu rendimento? Ou, pelo contrário, considera que o Estado deve acarinhar o florescimento   de uma alargada rede privada de saúde, que necessariamente remeterá o tratamento dos pobres para um serviço público de saúde mínimo e descapitalizado?

 

Quer-me parecer que a segunda hipótese é a que mais se aproxima do espírito do parágrafo. No fundo, o trecho está bem mais próximo do projecto de revisão constitucional do PSD do que da Constituição que Cavaco pretende jurar e fazer cumprir.

 

Publicado também em Alegro Pianíssimo