Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arrastão: Os suspeitos do costume.

A praxe integra

Miguel Cardina, 20.10.11

O MATA convidou-me há dois anos para escrever um texto sobre a praxe, que republico abaixo. É que passeando estes dias pelas ruas vejo que muito pouco mudou. Algumas instituições universitárias têm tido coragem para afrontar estas práticas e o assunto foi tema de um filme que ainda não vi mas espero ver em breve: Praxis, de Bruno Cabral. Mas a realidade continua a passar-nos ao lado, como se estas coisas fossem apenas brincadeiras de pós-adolescentes.

 

O QUE EU PENSO DAS PRAXES

Penso que a praxe integra. Integra a crença de que a humilhação e o arbítrio podem dar lugar a formas salutares de relacionamento. Integra os cânticos boçais e a gesticularia grosseira no complexo das “culturas académicas”. Integra rituais de carácter hierárquico ou punitivo que privilegiam a autosuficiência grupal em detrimento do direito à dissidência ou à timidez. Integra as “tradições” como um valor em si, independentemente dos juízos que sobre elas possamos fazer. Integra uma nebulosa de desconhecimento sobre a origem das tais “tradições”, em regra bastante recentes e “impuras”. Integra o machismo e a homofobia no senso comum. Integra os estudantes numa estranha mistura de irresponsabilidade e elitismo social. Integra a ideia de que brincando à obediência se fomenta a liberdade. Integra a noção chantagista de que “tudo é praxe”, mesmo quando muitas práticas efectuadas em território estudantil ocorrem à margem ou contra aquilo que a praxe pretende integrar. É verdade, a praxe integra. Só falta agora desintegrá-la.