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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O fim da democracia

Sérgio Lavos, 05.07.12

 

A decisão do Tribunal Constitucional não só legitima a ilegalidade dos cortes nos subsídios como abre escancaradamente a porta aos cortes dos subsídios no privado. Pedro Passos Coelho não se fez rogado e entrou com tudo, anunciando que o Governo vai estudar a forma de aplicar a equidade exigida pelo Tribunal, isto é, a melhor forma de espoliar o resto dos portugueses dos subsídios de férias e de Natal. Tudo perfeito, o país acabou de ser suspenso, portanto eu também acabei de perder todo o respeito pela democracia formal e burguesa. Ainda é cedo para ir para a rua?

O silêncio não é uma opção

Sérgio Lavos, 09.06.12

 

Os jornais gostam de contar histórias como a de Basel Sheade. Cristão sírio com uma bolsa Fullbright de cinema que regressou ao seu país natal para filmar a chacina dos compatriotas às maõs do exército e das milícias de Bashar al-Assad. Também falam dos seus próprios mártires, como a jornalista americana Marie Colvin e o fotógrafo francês Rémi Ochlik. Os três morreram em Homs, a primeira cidade a sofrer o cerco e a ser notícia pelos massacres cegos contra civis. A Homs seguiram-se Houla e agora Qubair, aldeia próxima de Hama.

 

Sheade regressou ao país para divulgar a história que Assad nega. Para mostrar a realidade que a Rússia e a China tentam proteger. Para revelar ao mundo que não pode haver meias verdades nem desculpas quando poderão ter morrido, para além dos jornalistas e do futuro cineasta, cerca de 13000 civis sírios. Não estamos a falar de mercenários, como insistem em dizer os cada vez mais alucinados comunicados do regime sírio, nem de terroristas - o nome encontrado por potências opressoras quando se referem a combatentes pela liberdade. Há uma rebelião que nasceu com os primeiros sinais da Primavera árabe, e que tem resistido à bota do regime durante o último ano e meio. Assad, admirado por alguma esquerda alienada e durante algum tempo suportado pelo Ocidente que olhava para ele e para a glamorosa mulher com a benevolência da táctica provisória, já não poderá passar por ditador amigo. O seu domínio poderá ter chegado ao fim, à medida que os países que o toleravam vão endurecendo as suas posições.

 

Uma vez mais, o que fazer? Deixar o massacre continuar ou intervir mais activamente? Não é uma decisão fácil, e Assad certamente não irá facilitar o processo. Não parece querer sair e, enquanto os rebeldes vão conquistando mais posições, o exército e as milícias vão intimidando e matando as populações civis que apoiam a revolta.  

 

São as histórias de heróis que os jornais gostam de contar que nos mostram o que se está a passar na Síria. Para além das cortinas de fumo e das desnecessárias manipulações - como o uso de uma fotografia de civis mortos tirada no Iraque em 2003, difundida pela BBC como sendo do ataque a Houla*. As reportagens dos jornalistas que morreram por lá são o que nos permite fazer o nosso julgamento. 13000 civis mortos não é apenas um número; as crianças assassinadas a sangue-frio muito menos. O silêncio não é uma opção. 

 

*Corrigido.

Em época de profunda crise, regressar aos clássicos (1)

Sérgio Lavos, 11.11.11

"Onde os economistas burgueses viam relações entre objectos (troca de mercadorias por outras), Marx descobriu relações entre pessoas. A troca de mercadorias exprime o laço estabelecido por meio do mercado entre os diferentes produtores. O dinheiro indica que este laço se torna mais estreito, unindo indissociavelmente num todo a vida económica dos diferentes produtores. O capital significa um maior desenvolvimento deste laço: a força de trabalho do homem transforma-se em mercadoria. O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário da terra, da fábrica ou dos instrumentos de trabalho. Uma parte da jornada é empregue pelo operário para cobrir o custo do seu sustento e da sua família (salário); durante a outra parte da jornada trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte de riqueza da chave capitalista."

 

Em Sobre a Revolução Cultural, Lenine. Edição Iniciativas Editoriais, tradução de Rui Cruz.

Vítimas e carrascos

Sérgio Lavos, 20.10.11

 

A questão do humanismo, aqui aflorada pela Ana Cristina Leonardo, é essencial em mais uma execução - não neguemos as evidências, Khadafi foi executado - de um ditador árabe. Depois de Saddam, a cuja morte assistimos em directo, e de Bin Laden, de quem não chegámos a ver o cadáver, o déspota líbio, capturado, espancado e assassinado pelos revolucionários. Contudo, se é verdade que não devemos ser ingénuos em relação ao gesto de quem mata Khadafi, também não deveríamos ser no que diz respeito à natureza do acontecimento: ao longo da História, as mudanças de regime raramente acabaram no julgamento dos antigos governantes. A diferença entre passado e presente reside apenas nos meios de registo à disposição. Não há imagens da cabeça de Robespierre nem do corpo de Hitler envenenado, mas de Mussolini resiste no imaginário colectivo a fotografia do seu cadáver dependurado e ensaguentado, acompanhado na morte violenta pela amante e por alguns dos seus próximos. Alguém considera - ou, para todos os efeitos, considerou - que não terá sido feita justiça no caso do fascista italiano? É que, na realidade, a execução de Mussolini não passou de um acto de vingança revolucionária (os julgamentos em tempos de guerra tendem sempre para a farsa encenada). Para um detractor da pena de morte, deverá ser tão deplorável um julgamento seguido de execução pelo Estado como uma execução a frio, sem julgamento. O que muda, então? A imagem em movimento e a actualidade do acontecimento. A imagem de um ditador que durante décadas governou um país perseguindo e matando parte do seu povo é esmagada pela evidência da brutalidade cometida sobre ele. O ditador transforma-se em vítima - ou deveria transformar-se, aos olhos de um verdadeiro humanista. Mas que essa inversão não apague dois factos: que nós, olhando para o ecrã, não estamos lá (apesar de acreditarmos nisso); e que na morte do ditador as vítimas deste não deverão ser esquecidas. É humano, tratar assim um Homem? Não, seguramente. Mas o cérebro primitivo, violento, não condescende em momentos destes. E se falamos de uma turba, de um colectivo, mais facilmente a violência se impõe e domina. E aí não há Razão que salve o ser humano de si próprio.

 

(Recordo dois textos que escrevi a quando da morte de Saddam Hussein. E constato que a minha posição não é exactamente a mesma. Dá que pensar.)

Adeus, Lenine

Sérgio Lavos, 22.08.11

Há quem ainda tenha certezas, na questão líbia: a deposição de Khadafi é uma coisa má, pois permitirá o avanço do imperialismo americano. Não me merece qualquer tipo de comentário. Vou antes deixar aqui um link para este excelente artigo, que encontrei via Palmira F. Silva. Quem tiver certezas sobre o mal que brotará no mundo em consequência da revolução líbia, escusa de ler. É uma perda de tempo. Continuem a acreditar naquilo em que acreditam.

A libertação está próxima

Sérgio Lavos, 22.08.11

 

O abjecto regime de Khadafi caiu. O ditador fugiu, revelando na derrota a cobardia que também costuma caracterizar este tipo de facínoras, e mostrando que a sua propalada loucura não chega a beliscar o instinto de sobrevivência. Boas notícias são também as promessas, por parte do porta-voz dos rebeldes, de que nenhuma base da Nato será construída em território líbio. Mais uma peça do dominó que cai. A revolução continua no bom caminho.