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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Dizem bem que os extremos se atraem

Sérgio Lavos, 02.05.12

 

A minha alegoria com zombies provocou várias reacções, da direita à esquerda. Uma vez mais, confirmaram-se as minhas ideias sobre estas duas facções: se a direita neoliberal age motivada pela desonestidade intelectual e pela hipocrisia, a esquerda revolucionária de sofá responde com uma grande dose de paternalismo em relação ao povo que a abandonou e se atirou nos braços de um capitalista no dia do trabalhador; e sobretudo com uma violência verbal própria de matarruanos, de gente habituada a espetar picaretas nas cabeças dos adversários políticos. Sinceramente, estou bem onde estou, obrigado, apesar de não ser militante de qualquer partido - e os dois textos do Daniel Oliveira, defendendo serena e racionalmente uma posição diferente da minha, reforçam esta ideia. Apenas lamento que a referência aos subversivos zombies de Romero tenha passado despercebida a toda a gente. Um tipo anda aqui a esforçar-se para promover a revolta e a pilhagem nas lojas simbólicas do consumismo, e só o André Azevedo Alves é que percebe. Leva a palma, ele e o João José Cardoso, que captou o essencial da mensagem romeriana

Manual de instruções para revolucionários à procura de uma revolução (5) - Minar o capitalismo a partir da sua essência, a publicidade

Sérgio Lavos, 11.08.11

 

Uns dias fora não me permitirão continuar o debate sobre os motins ingleses. Pena, tem sido tão educativo quanto divertido. Até agora, as principais consequências dos distúrbios são:

 

- O agravamento da tensão racial entre afrocaribenhos, asiáticos e turcos.

- O endurecimento das medidas repressivas da polícia, num país conhecido por praticar um policiamento de proximidade, mantendo as ruas seguras sem hostilizar as populações. Se muitos dos delinquentes se queixavam do tratamento policial recebido (com razão ou sem ela), daqui para a frente certamente terão muito mais do que se queixar. E um Estado policial é um Estado menos democrático, menos livre. Para todos, delinquentes ou não.

- O aparecimento de milícias de extrema-direita, grupos de vigilantes que percorrem as ruas à procura de potenciais criminosos. 

- A estetização da violência feita pela Levi's (essa importante multinacional anarquista), sob a forma de um anúncio agora lançado que mostra um amotinado enfrentando a polícia. A mensagem, definitivamente, passou.

 

Gostei deste post da Raquel Varela, mesmo não concordando com tudo o que é ali escrito. Sim, os marxistas nunca ficaram felizes com a violência. Mas não me parece que esta violência tenha alguma coisa a ver com Bakunin - a anarquia é uma proposta política tão sistematizada como outra qualquer, nada tem a ver com irrupções despolitizadas de violência. Pensando bem, nem com Malcolm McLaren - a destruição punk era tão niilista quanto estética; partiam montras e incendiavam viaturas pelo prazer de o fazer - não consta que cobiçassem o que as lojas vendiam. Contudo, se realmente estes motins contribuirem para uma aproximação dos sindicatos e da esquerda tradicional aos verdadeiros excluídos do sistema, já se poderá afirmar que alguma coisa de importante terá nascido do caos. Aguardemos.

 

Por outro lado, não se desse o caso de não apreciar por aí além de falar com jogos de computador, até responderia a quem fala do que eu escrevi sem sequer se dignar a linkar os meus textos. Uma oportunidade perdida. Lamentável.

O vazio do gesto

Sérgio Lavos, 10.08.11

Foto do Guardian 

 

Como ainda existe alguma massa crítica com a qual vale a pena discutir no 5 Dias, vale a pena perder mais algum tempo com o tema.

 

Começa o Tiago Mota Saraiva por afirmar que as notícias que falam em convocação dos amotinados através do BlackBerry têm aparecido apenas com o intuito de descredibilizar o carácter de classe do protesto. Admito que a disseminação destas informações tenha tido como principal intenção essa desvalorização dos protestos. Mas não sou ingénuo ao ponto de achar que não haja um fundo de verdade na notícia. Mais, afirmar que uma "esmagadora maioria" dos amotinados não tem dinheiro para os BlackBerry é uma daquelas coisas que se dizem apenas em defesa de uma ideia preconcebida - há amotinados a conduzirem carros que atropelam residentes protegendo os seus bens. Certamente que a situação em Inglaterra nada tem a ver com o Egipto. E é esta uma das principais diferenças entre as duas revoltas: no Egipto, uma elite com acesso às redes sociais teve conhecimento do que se passara na Tunísia (aqui sim, terá acontecido uma verdadeira revolução popular) e decidiu ir para a rua protestar contra o regime. Atrás desta elite, foram as centenas de milhar de egípicios descontentes. A revolução acabou por ter lugar em consequência da vontade e da persistência de muitos. Não houve tumultos localizados, nem pilhagens generalizadas, apenas uma massa incontrolável de pessoas a pedir a mudança no país. A importância dada aos BlackBerry sinaliza a natureza dos protestos. Mesmo que na origem do descontamento estejam factores sociais (estão sempre, mesmo quando se trata de criminalidade) a verdade é que a forma que os protestos acabaram por tomar esvaziou de conteúdo político o gesto.

 

Não sei de que modo o Tiago acha que a re-politização dos espoliados poderá acontecer. O que estamos a assistir é precisamente a uma confirmação das premissas do neoliberalismo: a despolitização da sociedade. Em vez de cidadãos com uma voz activa nas decisões dos países, somos agora consumidores nas mãos das grandes corporações. Os jovens que andam a pilhar lojas em busca de roupa de marca, ou a destruir automóveis e lojas, limitam-se a expressar a sua raiva por estarem fora desse círculo consumista. Como escreve aqui Zigmunt Bauman (via Luís M. Jorge, que de resto faz uma breve mas incisiva análise do que está a acontecer), não se trata de lutar por pão, mas por objectos aos quais apenas uma parte da população pode aceder. Achar que os amotinados querem destruir para construir é apenas wishfull thinking. Os amotinados simbolizam o reverso distorcido do consumismo. O investimento dos jovens nos objectos roubados é a outra face da sociedade do hiperconsumo, uma replicação fora-da-lei da angústia de status predominante. Há uma completa despolitização nas intenções (não há manifestos, ideias, líderes) e uma sobrepolitização nos gestos: a fúria dos amotinados é dirigida às grandes lojas, símbolos do poder económico, e não a símbolos do poder político (com a excepção da polícia, que funciona aqui apenas como defesa do poder económico, e não político), o que apenas reforça a força simbólica das grandes corporações. A luta não se faz contra o poder que exclui. Os motins são escaramuças inúteis, improdutivas, que apenas poderão ter como consequência um reforço da legitimidade de uma sociedade que discrimina e guetiza parte dos seus cidadãos.

 

Será prematuro depositar nestas revoltas a esperança de uma revolução. Aliás, o mais positivo que até agora saiu destes motins é a união mostrada pelas comunidades a que pertencem os jovens. Imigrantes (ou descendentes) que vivem à margem, acabando por ser os primeiros a sofrer. Sofreram com os cortes do Governo de Cameron e sofrem agora com a destruição dos seus poucos bens. Queremos ver a politização dos marginalizados? É só olhar para estes grupos de pessoas, demarcando-se da violência, sem deixarem de denunciar as condições de marginalização a que são submetidos. Não tenho horror a revoluções com chamas e vidros partidos, nem me impressionam os feios, porcos e maus. A violência politizada será sempre uma resposta à violência estrutural (segundo Zizek) exercida pelo capitalismo. Mas sei diferenciar a violência consequente da estéril. A esquerda que quer construir uma sociedade mais justa tem de saber distinguir entre um movimento produtivo e um que parasita as comunidades marginalizadas, um movimento que transforma a violência numa forma de hiperconsumo despojado da troca simbólica. Por outras palavras, roubo. Nada que chegue a beliscar o que quer que seja. 

 

Adenda: julgo que a pergunta que Filipe Moura faz no Esquerda Republicana também foi respondida neste texto. Acrescento ainda: mais depressa me revejo nas revoltas que têm acontecido na Grécia (essas sim, poderão levar a algum lado) ou, indo mais longe no tempo, atribuo muito mais legitimidade aos motins que tiveram lugar na Argentina em 2002. A derrocada do neoliberalismo naquele país levou à justa ocupação das ruas pelo povo. Não é o que está a suceder neste caso. Mas existirá "a" revolução? Sim. Tunísia, Egipto, por exemplo. Na Europa as condições são diferentes, o caminho terá de ser outro.

Manual de instruções para revolucionários à procura de uma revolução (2)

Sérgio Lavos, 09.08.11

 

Aproveito para agradecer ao Renato Teixeira o tempo que está a dedicar à minha educação. E, já agora, perguntar-lhe quantos mais posts irão ter o meu nome - o meu ranking no Google agradeceria se continuasse a série por aí fora. Quanto ao resto, cada vez tenho menos dúvidas: daqui a duas semanas, quando estiverem presos todos os "revolucionários" que andam pelas ruas a pilhar os despojados da sociedade de consumo, a "revolução" acabou. E, no final, estaremos ainda mais longe de uma solução do que estávamos no início da semana. Mas imagino que este tipo de tragédias não comova o idealismo enviesado de muitos. Só me lembro do grito de guerra dos bushistas de sofá quando os EUA invadiram o Iraque. E é uma pena que assim seja.

 

(O vídeo, esse, encontrei-o no Blasfémias. Para que o Renato não fique ainda mais confuso.)

Esta não é de certeza a minha revolução

Sérgio Lavos, 09.08.11

 

O reverso do capitalismo explorador é a violência organizada com recurso a objectos simbólicos desse mesmo capitalismo explorador. Os motins em Inglaterra deixaram de ter alguma coisa a ver com contestação social e não têm qualquer motivação política pela qual valha a pena lutar, qualquer ideologia que os sustente. Os maiores prejudicados pela violência estão a ser as comunidades marginalizadas, os pequenos comerciantes e os pobres que estão a ver o pouco que têm ser destruído por gangs. A Revolução Blackberry aos burgueses revolucionários que a merecem: é toda vossa, a destruição e o enorme vazio ideológico que a impulsiona. Estão bem uns para os outros.