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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Marinho Pinto: de mal a pior

Daniel Oliveira, 16.05.08
Marinho Pinto defendeu que a violência doméstica não devia ser crime público porque isso impede que a vítima ponha fim ao processo. Não percebe que o que isto impede é que o agressor, que vive com a vítima, a obrigue a fazê-lo. A verdade é que antes da violência doméstica ser crime público, para chegar à punição do agressor punha-se em risco a vida da própria vítima.

Como escreveu Isabel Stilwell, «crime público significa que a sociedade considera que determinado acto lesa não só a sua vítima directa mas também toda a comunidade. É um crime considerado intolerável, e é por isso que o Estado se responsabiliza por perseguir e levar a tribunal o seu autor.»

Revelando a sua ignorância, Marinho Pinto defendeu ainda que a violência que é exercida sobre as mulheres "não é hoje a pior violência doméstica". Essa, diz ele, é praticada em relação às crianças e aos idosos. 17 mulheres assassinadas e 11 tentativas de assassinato só este ano, todas vítimas da violência doméstica? São trocos para o bastonário.

A Associação de Apoio à Vítima (APAV) e as associações de defesa dos direitos das mulheres, que estão no terreno e sabem da importância que teve esta mudança legislativa no combate a uma das mais cobardes formas de violência, reagiram, como seria de esperar, com indignação. E os partidos não deram ouvidos ao bastonário. Com alguma tristeza, começo a achar que é o melhor que há a fazer com Marinho Pinto.

Artigos do Expresso

Daniel Oliveira, 30.04.08
A semana passada não postei os meus dois textos do "Expresso". Hoje postei o dessa semana e da última. Manuela Ferreira Leite e as dificuldades que Sócrates pode esperar, o PCP e Angola, o regresso de Santana e o filme "Tropa de Elite". Está tudo na página do Arrastão para os artigos no Expresso. O texto (com um trailer) sobre o filme brasileiro fica também aqui, para debate.



Tropa de elite

O filme mostra as favelas do Rio de Janeiro pelos olhos de um agente do Batalhão de Operações Policiais Especiais, a tropa de elite da Polícia Militar. Baseado num relato na primeira pessoa, ganhou prémios por todo o mundo. O filme não é apenas um retrato do estado de guerra em que se vive no Rio. É um manifesto em defesa da lei sem lei como única forma de combater a criminalidade. Um manifesto contra as explicações sociais para a delinquência. Um manifesto que não se limita a justificar, antes defende de forma explícita, as execuções sumárias e a tortura. Que trata os brasileiros das favelas como gente que vive em terreno inimigo e por isso é inimiga. Gente com quem não há pontes possíveis.

Seria de esperar o choque e a indignação. No Brasil, a aceitação foi quase geral. Muito mais entusiasmo do que com 'Cidade de Deus', que vê as favelas pelos olhos dos favelados. Além da adrenalina, 'Tropa de Elite', de José Padilha, que acabará por estrear em Portugal e já tem a sua versão literária disponível nas livrarias, dá uma resposta rápida ao medo, quando não há resposta nenhuma. E a resposta é a bala. É assim quando deixamos que a injustiça crie uma multidão de miseráveis à nossa volta. Podemos fechar-nos nas nossas fortalezas para nos escondermos do caos. Mas os que têm de viver todos os dias paredes-meias com o crime acabarão por aceitar que, "na brincadeira sinistra de polícia e ladrão, não se saiba ao certo quem é herói ou vilão, não se saiba ao certo quem vai e quem vem na contramão", como diz o polícia narrador num dos seus poucos assomos de hesitação moral. Porque no momento certo, perante o medo sem remédio, todos temos um fascista na nossa cabeça. Todos cedemos à resposta do desespero. Todos queremos ver sangue.

Outros textos aqui.

Antes que seja de novo tarde

Daniel Oliveira, 08.04.08



Começou hoje o julgamento de 35 pessoas que, escondidas por de trás de organizações políticas, se dedicam à criminalidade comum, às ameaças, às perseguições e aos espancamentos. Que usando uma capa ideológica amedrontam, através da violência física, os que se lhe oponham. E mesmo os que, nem sabendo quem eles são, nasceram com a cor que eles consideram errada. O facto de usarem uma ideologia de ódio para justificarem a ilegalidade e alimentarem um clima de medo não é uma atenuante. É uma agravante. Porque torna a criminalidade conscientes e organizada. E por isso mais perigosa. Nos últimos 20 anos, a extrema-direita violenta já matou duas vezes em Portugal, numa delas com o envolvimento do principal réu neste processo. Vamos esperar por uma terceira?

O bitoque dá-te o know-how para o canibalismo

Daniel Oliveira, 14.03.08
O Governo tem um plano para exterminar 7 raças de cães perigosos. Pretende proibir a criação e importação dessas raças de cães. Os donos dos cães existentes terão que os esterilizar sob pena de serem multados. Um Estado que concebe e implementa um tal plano de extermínio é bem mais perigoso que os 5000 cães ditos perigosos que existem em todo o país. Eu sei que são cães, mas os planos para exterminar pessoas não diferem muito dos planos para exterminar cães. Por uma questão de precaução é preferível que o Estado não possua nem os meios, nem o know-how, nem o hábito do extermínio.
João Miranda

Já eu, devo dizer, sou completamente favorável à proibição de criação, importação e reprodução de raças de cães perigosos (chamar a isto de extermínio é no mínimo forçado), que se estão a transformar em armas mortais autorizadas, muitas vezes nas mãos de adolescentes. Vem é tarde.

Dar-se ao respeito

Daniel Oliveira, 13.02.08



Este polícia acha que o adolescente faltou ao respeito ao seu distintivo. Quando ele era adolescente ninguém lhe explicou que o respeito merece-se. O agente tem mais a aprender de como se dirigir a alguém do que o adolescente que ele está a repreender. Na escola de polícia não lhe explicaram que, quando um agente da autoridade fala com alguém, não implica com as pessoas porque acordou mal disposto; que um polícia não fala a ninguém na rua como fala um arruaceiro; que não cria problemas, resolve-os; que não usa a força a não ser que seja absolutamente necessário; que não levanta a voz a quem não lhe levanta a voz; que se porta com a decência que se espera de quem representa o Estado. O polícia de Baltimore foi suspenso. Como é evidente. Mas o mal que este senhor fez à imagem dos seus colegas já ninguém tira. Uma coisa é certa: as câmaras e a Internet estão a mudar algumas coisas.