Terça-feira, 23 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira


Se um ministro fala demais os mercados ficam histéricos. Se se cala ficam ansiosos. Se os eleitores, na sua livre escolha, elegem um governo que resolva defender os direitos dos cidadãos, ficam revoltados. Se um governo decide que os especuladores vão pagar impostos, ficam aborrecidos. Os mercados, sempre hipertensos, transformaram-se num excelente álibi para todos os abusos e todas as injustiças.

E como aceitamos que o poder absoluto dessa entidade semi-religiosa e castigadora, estamos a transformar as nossas democracias numa bolsa de valores, onde os jogadores ocuparam o lugar dos cidadãos. Não, já não aceitamos apenas a economia de mercado. Vivemos numa sociedade de mercado, dominada por uma cultura de mercado e regulada por uma democracia de mercado.

Só que, lamentavelmente para os que acreditam que o homem nada pode quando o Deus Mercado acorda mal disposto, ainda é quem produz que faz o mundo rodar.

Amanhã, os que produzem vão recordar ao poder político que também existem. Que também ficam histéricos, ansiosos, revoltados e aborrecidos. Por um dia, mostrarão ao poder político e económico que também querem contar naquilo a que ainda chamamos, por facilidade, de democracia. Para muitos, fazer greve será uma decisão difícil, que pode pôr em perigo o seu emprego ou a promoção esperada. Para outros, um acto que pode parecer inútil. Mas de nada servirão os resmungos quotidianos contra os políticos que tão mal nos têm governado se não formos coerentes. Amanhã veremos se os portugueses falam a sério quando dizem que estão fartos de pagar as crises que não provocaram. Ou sim, ou sopas.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira


A Irlanda foi obrigada pela União a pedir ajuda ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira e ao FMI. Na realidade, o Estado irlandês não precisava de dinheiro. Apenas teria de recorrer aos mercados da dívida em Abril de 2011, mês até ao qual tinha os seus problemas de financiamento resolvidos. Só que o mesmo que o levou a um défice público astronómico repete-se: é preciso salvar a banca em apuros.

Este pedido de ajuda, que enterra definitivamente a possibilidade de recuperação da economia irlandesa, pode vir a ter um efeito arrastamento para países como Portugal. E a Irlanda continuará o seu caminho para o abismo porque a Europa, apesar da sua generosidade com os especuladores, não muda uma vírgula nas draconianas imposições aos Estados-membros. Não se importa de ver afundar as economias periféricas da Europa para salvar a banca sem que, no entanto, tenha a coragem de dar qualquer passo para responsabilizar os culpados por este desastre e disciplinar o comportamento patológico das instituições financeiras.

O governo irlandês quer tentar o impossível: reduzir o défice público, causado por esta ajuda à banca, em 15 mil milhões de euros até 2014. E tentará que isso aconteça através do aumento de impostos e redução das prestações sociais. Trata-se de um desvio de fundos dos cidadãos e das empresas produtivas para as instituições financeiras. As mesmas instituições que não hesitam em cobrar juros usurários aos Estados para os salvar da situação em que ficaram por causa ajuda que lhe deram. Ou seja, a banca rouba duas vezes: é salva por dinheiro públicos e agradece cobrando juros astronómicos por um risco que ela própria provocou.

Aquilo a que estamos a assistir na Europa é a um roubo sem precedentes. E este roubo não resulta apenas da impossibilidade de deixar cair instituições financeiras que se transformaram em monstros inimputáveis. Resulta de uma geração de líderes políticos cobardes que se recusam a decidir que a política tem de voltar a comandar a economia. O que está a acontecer na Irlanda é apenas mais um episódio de um assalto aos cofres públicos. E ele continuará até os europeus mudarem de governantes.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira
O Arrastão volta a crescer. Com três entradas directas. Andrea Peniche, editora, licenciada em Filosofia e mestranda do curso "Educação, Género e Cidadanias", portuense e portista, feminista de todos os costados, é também uma das autoras do blogue Minoria Relativa. Miguel Cardina, historiador, coimbrão (mais um), batido na blogosfera vindo do Vias de Facto, é investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. E Ana Nunes, lisboeta e benfiquista, ????, que se estreia em grande na blogosfera, aqui no Arrastão. Podem ver as suas pequenas biografias na página dos autores.

A todos eles as boas vindas. Com um pormenor simpático: finalmente isto deixa de ser um clube masculino.

O Arrastão passa a estar albergado na plataforma do Sapo (com algumas pequenas alterações gráficas), mas o endereço continua a ser o mesmo.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
“Sei que há pouco dinheiro mas tem que haver dinheiro para o essencial. Comigo na Presidência ninguém toca no SNS, na escola pública, na segurança social pública e nos direitos laborais dos trabalhadores. O candidato que se recandidata não diz o que fará se isso acontecer. Pois eu digo: veto e usarei todos os poderes presidenciais para defender esses direitos e para defender o conteúdo social da nossa democracia”.
Manuel Alegre

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


Hoje, na cimeira da NATO, uma das chaves centrais de todo o xadrez estratégico é a Turquia. Pela sua posição geográfica, pela sua relação com o Médio Oriente e os países islâmicos, pelo seu crescente poder económico e militar. E não nos podemos deixar de lembrar que a este colosso, que daria à Europa um extraordinário poder internacional, foi negada a entrada na União. Como um clube elitista e decadente, por razões mesquinhas, fez-se de caro quando não podia.

E olhamos para a patética situação actual da Europa, para este seu suicídio económico, para os egoísmos nacionais que a matam como projecto político, para a construção de uma moeda feita de pernas para o ar, para a escolha de Durão Barroso como seu líder, apenas porque é suficientemente irrelevante para não fazer sombra ao ego de nenhum dos líderes das maiores potências, para a incapacidade de dar passos para um governo europeu, deixando sempre tudo a meio, e percebemos como tudo isto não passa de um equívoco.

Julgámos, por quase meio século, que o que veio a ser a União Europeia concretizava um sonho que parecia quase impossível. Em parte conseguiu-se. Tantos anos de paz não é coisa pouca. Mas no momento da verdade a Europa emperrou. Embrenhada nas suas contradições, incapaz de reagir quando a história se encontrou com ela, é hoje um doente em estado terminal. E não falta muito para podermos decretar a sua morte. Como mercado único, como poder geoestratégico, como projecto político, como pólo civilizacional, mas, acima de tudo, como ideia democrática.

Não há Europa porque demasiado líderes fracos a mataram. Dela, pouco podemos esperar para alem do cálculos eleitorais de dirigentes nacionais e a cobardia de burocratas sem dimensão política. A Europa perdeu o rumo, perdeu o seu modelo social e perdeu os europeus. Só lhe falta mesmo perder a pompa que a faz olhar de cima para os turcos. O que eles se devem estar a rir de nós. Livraram-se de boa.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 18 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira


A Irlanda é que era. Impostos baixos, desregulação laboral, exposição sem limites aos riscos externos, a receita mais do que perfeita. Devíamos seguir-lhe o exemplo porque os factos não enganavam. Aquilo é que era uma maravilha.

Depois dos factos se virarem contra os adoradores da Irlanda, eles não desarmaram. Sim, digam o que quiserem. Ainda estaremos nós a penar a Irlanda correrá saltitante e fora da crise. Vão ver! Só que a Irlanda, teimosa, não ficou melhor. Ficou pior.

Mas uma fé é uma fé e nada a pode contrariar. A Irlanda continuou a ser um exemplo. Porque tomou antes de todos os outros as medidas que se exigiam. Ah, se Portugal tivesse feito o mesmo em vez de andar a perder tempo. Cortar a direito e sem contemplações. Aquilo sim, é ter coragem. Aquilo sim, vai correr bem.

Mas a Irlanda, que não sabe nada de economia, armou-se em parva e a sangria que começou antes dos outros acelerou ainda mais a desgraça. Só que nada demove quem se guia pelo dogma. E se os factos desmentem uma boa ideia, os factos estão errados.

Não julguem que a Irlanda agora se vê obrigada a receber o socorro que não queria para salvar as suas contas públicas. A Europa, que é como aquele escuteiro que para fazer uma boa acção obriga a velhinha contrariada a atravessar a rua, exige que a Irlanda aceite o apoio para continuar a salvar os bancos que a enterraram. Não é seguramente para resolver os problemas com a sua dívida, já que só em Abril do ano que vem precisava de ir aos mercados.

A coisa mais extraordinária de toda esta história é que são os mesmos que defenderam a desregulação do sistema financeiro, que defenderam o desastroso modelo irlandês como exemplo e que defendem as políticas de austeridade que estão a matar as economias europeias que são ouvidos como conselheiros das Nações. Os cangalheiros fazem-se passar por médicos. E o engodo funciona.

Publicaco no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Nada há de mais cansativo do que as conversas existenciais sobre os portugueses. Eles são tristes. Pessimistas. Obedientes. Invejosos. Mesquinhos. É curioso que a coisa raramente bate certo com a ideia que os portugueses têm do seu passado. Que foram corajosos. Ambiciosos. Tolerantes. Generosos. E a propósito desta incongruência construiu-se uma narrativa que se entranhou nos nossos espíritos: a de um Império perdido que espera, acabrunhado nos seus brandos costumes, pelo regresso de um Sebastião que lhe devolva essa glória imaginada.

Os portugueses não são nada. São, como todos os povos, temerosos e temerários, tolerantes e preconceituosos, mesquinhos e generosos. E a sua proverbial inveja resulta apenas de uma forma resignada que temos de lidar com a injustiça. Quando se vive num país onde uma pequena elite goza de um conforto desproporcionado para os recursos que temos e a maioria de uma pobreza que o que já temos não justifica, a inveja é apenas a alternativa passiva à revolta. Mas essa revolta já se fez sentir algumas vezes: na I República e no PREC, por exemplo. Dois momentos de dignidade em que os portugueses contrariaram a narrativa que a sua elite foi construindo sobre eles. Dois saltos no escuro que nos fizeram melhores como povo.

Aquilo a que assistimos nos últimos meses tem décadas. Tem séculos. Dia após dia, todos os dias, vendem-nos as histórias de sempre: vivemos acima do que podemos; não merecemos o pouco que temos; somos gastadores e improdutivos; devemos aceitar disciplinadamente todos os sacrifícios; a revolta apenas nos poderá prejudicar.

É por isso que a próxima greve geral é uma urgência. Um momento em que recusamos a estabilidade que nos amesquinha numa mediocridade que não merecemos. Não é apenas um protesto. Não pode ser apenas um grito. Tem de ser um aviso. Não somos o que se diz de nós. Ou até somos. Invejosos perante os privilégios que outros não merecem. Rancorosos por décadas de assalto ao que devia ser de todos. Intolerantes com a injustiça que deixa sempre para os mesmos a fatura de erros que não lhes podem ser atribuídos. Enfim, cidadãos. Fartos de ser os portugueses que queriam que fossemos.

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de novembro de 2010

por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira
Como sabemos, o sector bancário foi a único que realmente se salvou do sacrifício geral. Empresas, desempregados, pobres, trabalhadores, classe média, todos levaram pela medida grande. Para os bancos, com enormes responsabilidades na situação em que estamos (recordo que o nosso principal problema é, comparativamente com os restantes países europeus, o endividamento externo privado), ficaram as medidas simbólicas.

Os mesmos deputados que, na altura de elaborar um orçamento demolidor, acharam que não deviam incluir os bancos nos sacrifícios, resolveram dar um ar da sua graça. Um grupo de parlamentares do PS defendeu um aumento da taxa efectiva de IRC para a banca.

Para defenderem o seu ponto de vista recordaram, e bem, que em 2008 e 2009, quando "as instituições financeiras se defrontavam com grandes dificuldades de financiamento externo", o Governo "avançou com a concessão de garantias do Estado para o reforço da estabilidade financeira do mercado português, assumindo responsabilidades até 20 mil milhões de euros". E que a nacionalização do BPN, "operação destinada a evitar uma catástrofe do sistema financeiro" obrigou a uma assistência estatal de 4600 milhões de euros.

Perante isto, os corajosos deputados fizeram uma proposta ao governo para obrigar a banca a pagar os mesmo que as outras empresas? Não. Isso seria um sinal inaceitável de radicalismo. Uma irresponsabilidade. Ela que autoproponha um aumento da taxa. Em quanto? "Até poderia ser o valor pago pelas empresas normais, mas também pode ser um pouco abaixo. A banca saberá até onde pode ir."

Sim, leram bem: os cândidos (antes fosse isso) "socialistas" querem que os banqueiros tenham a amabilidade de aumentar os seus próprios impostos. E é à vontade do freguês. Mandem aí um valor que o governo aceita. O que espanta já não é a falta de espinha destes senhores. É a falta de sentido do ridículo. Antes a direita, que por não ter vergonha do que defende, não se presta a estas figuras.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 16 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira


A coisa mais grave que Luís Amado disse na entrevista ao "Expresso" não foi a defesa que fez de uma coligação. Foi a hipótese de sairmos do euro, que correu mundo, do "The Wall Street Journal" ao "Le Fígaro", do "El Mundo" à "Folha de São Paulo", do "El Universal" ao "The China Post". A Reuters resumia assim a entrevista do ministro dos Negócios Estrangeiros que, contrariando a posição do governo português, já defendeu no passado a constitucionalização dos limites ao défice: "O fracasso em obter uma coligação governamental ampla para enfrentar a crise financeira poderia forçar Portugal a abandonar o euro, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros numa entrevista publicada sábado".

A leviandade deste senhor, tão apreciado pela direita nacional pelas suas pretéritas posições sobre a invasão do Iraque, parece não ter limites. Funciona como uma espécie quinta coluna neste governo.

Aqui, discutiu-se sobretudo a tal necessidade de uma ampla coligação. Somos especialistas em "não temas". A razão da nossa crise nada tem a ver com uma suposta instabilidade política. Até porque não há crise política nenhuma. Tudo o que o governo tem proposto, do orçamento aos dois PEC's, foi aprovado. Quase sem modificações. Para todos os efeitos práticos, a coligação já existe. O governo não pode cair, por isso nem o espectro de uma demissão paira neste momento sobre o País. Todos sabemos que mesmo que venha a haver eleições no próximo ano - e para isso seria necessário que ou o PCP ou Bloco votassem a favor de uma moção de censura apresentada pelo PSD - e Passos Coelho as ganhe a política de austeridade vai continuar a ser seguida. E, por fim, como se viu com a aprovação do Orçamento e subsequente subida das taxas de juro, as decisões políticas tomadas em Lisboa têm um efeito quase nulo na forma como os especuladores se relacionam com a nossa dívida. Estamos no pacote dos PIGS e isso é que conta.

A crise que conta, a instabilidade que devemos esperar, é social. É a do desemprego, da redução do poder de compra, da pobreza e das repercussões devastadoras que este orçamento terá na economia e na vida das pessoas. Um assunto menos excitante para jornalistas e comentadores, que tantas vezes escrevem para si próprios e para os agentes políticos. Se nascesse um governo de bloco central amanhã, tirando a multiplicação de lugares para mais boys e a institucionalização do pântano político em que vivemos, nada mais mudaria. A crise económica e financeira continuaria, imperturbável. O saque bancário aos dinheiros públicos não pararia. A vida dos portugueses não melhoraria nem um milímetro.

Por isso, sobre este assunto não vale a pena gastar nem mais uma linha. A coligação não vai acontecer. E se acontecesse era absolutamente indiferente. Ela já existe para tudo o que interessa. Infelizmente.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


A insegurança e a criminalidade são temas muito do apreço dos que vivem do medo. Não que sejam irrelevantes. Eles limitam o bem mais precioso para qualquer sociedade que se queira decente - a liberdade - e são sintomas da desigualdade. Mas, quase sempre, aqueles que as têm como prioridades do debate político usam-na para nos oferecer como cura a própria doença: limitar ainda mais a nossa liberdade e promover, através do estigma, a desigualdade. Não é por isso de espantar que a criminalidade que não sirva esta agenda raramente esteja na ordem do dia.

Exemplo: a violência doméstica, que tem as mulheres como vítima quase exclusivas. Passa-se dentro de portas, não parece perturbar o quotidiano dos que não a experimentam e destrói essa cândida ideia que temos de nós de próprios enquanto sociedade moderna e evoluída. Este ano já tirou a vida a trinta mulheres. E estes são apenas os casos limite. Os espancamentos, as limitações violentas à liberdade individual, as humilhações que destroem até aos ossos a auto-estima de tantos seres humanos são banais. Fazem parte de um quotidiano que olhos e ouvidos de tantos decidem ignorar. Porque entre marido e mulher não se mete a colher.

Escondida entre quatro paredes, a violência doméstica deixa a vítima na mais completa e angustiante solidão. Muitas vezes corroída pela culpa, numa sociedade que ainda aceita com naturalidade que alguém pode ser propriedade de alguém. Que infantiliza as mulheres, tratando-a como um mero adereço. Que as trata como palradoras compulsivas, fadas do lar ou meninas mimadas viciadas em compras, que cada classe social trata dos seus próprios estereótipos. Que convive bem com a figura da "primeira-dama", uma espécie de penacho de um Chefe de Estado. Que pergunta a uma mulher como concilia a vida familiar com a vida profissional mas nunca se lembra de fazer a mesma pergunta a um homem. Que trata a infidelidade masculina como sinal de virilidade e a infidelidade feminina como sinal de promiscuidade. Que paga, em média, mais aos homens do que às mulheres pelo mesmo trabalho. Que, tendo mais mulheres a sair das faculdades, não as deixa chegar aos lugares de topo, porque homem que é homem não aceita ordens de mulher. Que vê a função de "doméstica" com uma estranha naturalidade e a de "doméstico" como uma bizarria.

Uma mulher que me ensinou desde o meu nascimento muito do que sei fez-me saber sempre uma verdade fria: só é realmente independente e livre quem pode garantir o seu próprio sustento. Quando se pode fechar a porta sem olhar para trás. Por isso, podemos mudar muitas leis (e, ao tornar a violência doméstica num crime público, deixámos claro que, como comunidade, não aceitamos ficar em silêncio), mas nada conseguiremos enquanto as mulheres não conquistarem a igualdade como profissionais, trabalhadoras e cidadãs.

Só aí a violência doméstica deixará de ser uma questão de género. Só aí, milhares de homens demasiado inseguros para amar uma igual deixarão de conseguir transformar as suas casas em campos de concentração. Só aí conseguiremos punir estes selvagens como merecem. Só aí passarão a ser olhados com asco pelos seus vizinhos, amigos e familiares. Só aí ficarão sós até meterem nas suas fracas cabeças que ninguém pertence a ninguém. Só quando for maior vergonha ser um agressor do que ser "corno", "banana" ou apenas civilizado, é que estriparemos do nosso quotidiano este crime que confunde amor com tortura. Só aí faremos justiça às trinta mulheres assassinadas em 2010 pelos seus companheiros, maridos ou namorados. No século XXI. Num país europeu.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Sábado, 13 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira
Os Estados Unidos devem processar o antigo Presidente George W. Bush por ter permitido o recurso a tortura por afogamento simulado durante interrogatórios a suspeitos de terrorismo na prisão de Guantánamo, defende a organização de direitos humanos Amnistia Internacional.

por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira


Fez ontem 35 anos que Angola conquistou a sua independência. No mesmo dia, o jornalista Rafael Marques deu uma entrevista ao excelente programa "Pessoal e Transmissível" , da TSF. Um homem que corre quotidianamente o risco de perder a liberdade ou mesmo a vida, porque denuncia sem medo a corrupção que governa o País. Explica porque não desiste: deve isso aos homens e mulheres que lutaram, com armas, pela independência, no sonho de construir uma Angola melhor.

As palavras claras sobre Angola são raras. Há demasiada gente a ganhar dinheiro para que a decência se imponha. Mas Rafael Marques não desiste. Na entrevista explica que Angola é governada por "gangsters". Gangsters que dilapidam as imensas riquezas do País. Que o governo não combate a corrupção porque ela é a sua principal arma de poder. Com ela compra silêncios. Mas não fica por Angola. Acusa Portugal de ser cúmplice. Pior do que cúmplice: um "vassalo" que em troca de bons negócios se humilha perante a quadrilha que governa o País.

Dirão que é pragmatismo. Será. Mas o mesmo pragmatismo só faria um homem como Rafael Marques desistir. Viveria hoje melhor. Com mais segurança e seguramente com mais dinheiro. Mas o jornalista tem outras prioridades. Prioridades éticas.

Muitos dos que admirarão a sua coragem aceitam a "realpolitik" como regra para as empresas e para os Estados. Estranho raciocínio, que deixa homens sozinhos a lutar contra a arbitrariedade e perdoa os que, correndo menos riscos, optam pela cobardia e pela cumplicidade perante o crime.

Publicado no Expresso Online.

por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira
Por essa Europa discute-se o despesismo, a insustentabilidade do Estado Social, a urgência de cortar na despesa pública e as culpas de cada governo, seja ele de esquerda ou de direita, pela situação de cada país. Como cada um olha para a árvore onde está empoleirado, quase ninguém vê a floresta. Esta miopia geral naturalizou a crise - como se, por ter origem externa, fosse obra dos deuses - e o discurso do sacrifício apresenta-se como inevitável.

Não se trata de desculpar os erros deste governo. Mas sou, por honestidade, obrigado a aceitar que se nos últimos anos tivéssemos sido governados por outro primeiro-ministro não estaríamos muito melhor. Basta olhar para a calamitosa situação de todas as economias periféricas da Europa para perceber que os erros internos não chegam para explicar tudo o que se está a passar. Os mesmos que apontam o dedo ao excesso de Estado fazem por ignorar a hecatombe irlandesa, onde as suas receitas fizeram a escola toda. Se contextos internos diferentes acabaram no mesmo resultado, talvez seja bom procurar em fatores externos a variável determinante.

Este exercício lógico encontra sempre resistências. Porque não beneficia as oposições internas. Porque atira a solução para longe e torna-a improvável. Porque retira ao espaço ainda natural da democracia, que é a nação, a sua própria razão de ser. Estamos presos na contradição que construímos: retirámos ao Estado-nação a sua capacidade de intervenção e regulação na economia mas continuamos a pensar e a agir como se tudo estivesse na mesma. É como se retirássemos o volante ao carro e responsabilizássemos o motorista por cada despiste.

A Europa sofre uma crise de origem económica e política que resulta de duas grandes opções. A primeira: ter deixado que a livre circulação de capitais corrompesse todos os domínios do capitalismo, deixando-o entregue a jogadores improdutivos e à complexidade de produtos financeiros impossíveis de regular, porque impossíveis de compreender. A segunda: criámos uma moeda única sem governo político. Este é o caldo perfeito para quem defende a libertação de recursos públicos para os privados através da destruição do Estado Social. Uma agenda que agora se impõe através da chantagem financeira e sem passar pelo crivo da democracia.

Quando me pedem alternativas a este orçamento vacilo na resposta. Claro que elas existem. A moral: dividir melhor os sacrifícios. Mas isso não salvaria a economia. A racional: apostar no investimento público para relançar a procura interna e o emprego. Mas para isso não há dinheiro no país. A verdadeira resposta - e a mais difícil - é europeia: pôr os especuladores na ordem, retirar das mãos da banca os destinos das contas públicas dos países europeus, entregando ao BCE a função de financiar as dívidas, e mudar a arquitetura institucional do euro.

Imagino que o leitor esteja aborrecido por não lhe dar um cordeiro nacional para o sacrifício. Acontece que esta crise é mesmo enfadonha. Profundamente ideológica e impossível de resumir num mau da fita. Também eu preferia que o alvo fosse fácil de identificar. Ia-se a votos e resolvia-se num instante. Mas a realidade é bem mais trágica. E para sair dela temos de meter na cabeça que santos da casa não farão milagres.

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de novembro de 2010

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


A Manuel Alegre pergunta-se se apoia ou não a greve geral. Ele responde o óbvio: que a compreende. E visita às centrais sindicais, num sinal político que não podia ser mais claro. Mas o guião das contradições entre o PS e o Bloco de Esquerda já está escrito e não devemos deixar que a realidade perturbe uma boa ideia feita.

Se se perguntasse a Cavaco Silva ele responderia que a greve é um direito. Seria suficiente. E mais não se pediria, porque nunca mais nada se pede a Cavaco Silva. O seu guião também está escrito: é ponderado e nunca diz muito do que pensa.

A Manuel Alegre pergunta-se como votaria o Orçamento. Coisa a que nenhum candidato a presidente, por não ser candidato a deputado, responderia. Mas logo se escreve: está com um pé dentro e outro fora. A Cavaco não se pergunta nada. Nunca disse o que realmente pensa deste orçamento. Apenas que deveria ser aprovado. Porque Cavaco não tem de ter opinião sobre nada. Mesmo que, não as tendo, nunca se engane. E raramente tenha dúvidas.

A Alegre pergunta-se sobre as suas relações com o Partido Socialista. Cavaco está isento de explicar as suas interferências crónicas, a partir de Belém, na vida interna do maior partido da oposição, de que a participação directa na escolha do representante do PSD nas negociações do Orçamento, numa clara violação do seu dever de neutralidade, foi o último exemplo. Cavaco é independente, mesmo que nunca o seja.

A Fernando Nobre escrutina-se as rendas da sua sede de campanha. A Cavaco nunca se pergunta quem financia e financiou as suas campanhas. Nem as suas relações antigas com o BPN e a protecção descarada que garantiu a Dias Loureiro. Cavaco Silva é sério, apesar das companhias que se lhe foram conhecendo. Está escrito e que ninguém se atreva a pô-lo em causa.

A todos os candidatos se fazem perguntas sobre as suas incongruências, as suas contradições, os seus erros passados, presentes e futuros. Cavaco passeia sem nunca ter tido de explicar os seus delírios sobre umas escutas que imaginou e que depois negou sem realmente negar.

Cavaco faz, há décadas, política sem debate, propaganda sem perguntas difíceis, erros sem censura mediática. E basta ler os jornais para perceber que a tradição vai continuar a ser o que era.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira
A relação entre Portugal e Angola é "uma relação de servilismo total por parte do Estado português", que se porta como "vassalo do governo angolano". Não podem deixar de ouvir a os destaques da entrevista de Rafael Marques à TSF (que é emitida hoje às 19.00). Um homem corajoso que não teme as represálias de um "Estado gangster".

Entrevista completa
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por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Charlie McCreevy é irlandês e foi, até Fevereiro de 2010, comissário para o Mercado Interior e Serviços. Saltou da Comissão Europeia para a companhia aérea Ryanair. Isto depois de muitas queixas de outras companhias aéreas pelo financiamento público a esta low-cost. E também arranjou emprego na NBNK Investments PLC, depois de ter sido um dos principais responsáveis pela regulação bancária na União.

Meglena Kouneva é búlgara e foi comissária para a Protecção do Consumidor. Foi para o BNP Paribas, depois de ter elaborado a "Directiva Crédito", simpática para as instituições bancárias.

Benita Ferrero-Waldner é austríaca e foi Comissária para as Relações Externas e Política Europeia de Vizinhança e entrou para o conselho fiscal da Munich Re, a principal empresa de resseguros da Alemanha, depois de se ter empenhado no projecto Desertec de abastecimento de electricidade da Europa por uma rede de centrais solares na África do Norte. Negócio onde a mesma Munich Re tinha um papel central.

Gunter Verheugen é alemão e foi vice-presidente da Comissão. Depois de a abandonar foi para o Banco Real da Escócia, para a agência de influências Fleishman-Hillard e para a instituição bancária BVR. Mais relevante: criou a sua própria agencia de lobbying para servir empresas e grupos de pressão junto das instituições europeias, incluindo a comissão que ainda há pouco integrava.

Dos 13 ex-responsáveis que deixaram a Comissão Europeia em Fevereiro de 2010, seis já estão a trabalhar no sector privado, quase todos contratados por empresas que de uma forma ou de outra foram afectadas pelas suas decisões, muitos deles sem experiência empresarial relevante anterior à sua entrada na Comissão. Da política para a Comissão, da Comissão para grandes empresas europeias.

A história dos caminhos paralelos destes comissários foi publicada na bastamag.net e vem ma edição portuguesa do Courrier Internacional deste mês. E ela é-nos muito familiar: políticos que usam os lugares públicos para favorecer as empresas que mais tarde os vão contratar. E que nessas empresas usam depois a sua rede de contactos políticos para que elas continuem a ser beneficiadas. Ao contrário do que muitos pensam, esta promiscuidade não é uma particularidade portuguesa. Ela é comum a quase todas as democracias e chega mesmo aos mais altos responsáveis políticos.

Por isso, não deixo de sorrir com a demagogia ingénua, que se entretém com salários de deputados e outros gastos do género. Não é aí que os Estados perdem dinheiro. O salário que conta não é pago directamente nem no momento em que o cargo é exercido. É depois de alguns políticos sem qualquer sentido de serviço público tratarem de interesses privados, lesando os cidadãos e as instituições que deveriam defender.

A verdade é que na Europa, como em Portugal, muitos cargos políticos estão nas mãos de mercenários que os põe ao serviço de quem há-de pagar mais. Não há lei de incompatibilidades que resolva isto. Quando os cargos são electivos, caberia à comunicação social seguir o rasto de ex-políticos e comparar as suas funções actuais com as decisões que tomaram no passado. Para que os partidos que escolheram aquelas pessoas para gerir o que é de nós todos serem punidos pelos eleitores. Quando não o são, como é o caso da Comissão Europeia, a coisa torna-se mais difícil. E esse é o drama da burocracia europeia: os cidadãos não as podem controlar. E são estes homens e mulheres, que ninguém conhece fora de Bruxelas e dos seus países de origem, que tomam as principais decisões que determinam as nossas vidas.

Em Portugal, a democracia está anémica e ninguém é responsabilizado por nada do que fez ao serviço de quem lhe paga mais tarde. Na Europa, não há democracia nenhuma e são os lóbis que tratam das nossas vidas. Num e noutro caso a política está à venda. Nós somos apenas um pormenor.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 9 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira


Com os juros da dívida a 6,9 por cento, mostrando que o orçamento aprovado não tem nem terá qualquer influência na famigerada falta de confiança dos mercados, os olhos de muitos portugueses viram-se para a China. E se a potência económica nos comprasse uma parte substancial da dívida?

Do ponto de vista económico, a ideia não é desinteressante. Ao contrários dos jogadores que brincam com o nosso dinheiro, a China tem todo o interesse que Europa e EUA estejam de saúde e que americanos e europeus tenham dinheiro para consumir. São os seus principais mercados e o aprofundamento da crise nos países desenvolvidos seria péssimo para a China. E o seu interesse nas dívidas do primeiro mundo é acima de tudo político e estratégico. O Mundo na mão da China, é um sonho cumprindo. Sem armas nem exércitos. Apenas graças à absoluta incompetência das duas potencias económicas, que se deixaram enterrar no lodo ideológico que lhes destruiu a capacidade de definir políticas económicas racionais. A Europa e os EUA, em vinte anos de domínio do neoliberalismo, desfizeram-se em crises sucessivas. Os chineses apanham os cacos e aproveitam a sua oportunidade.

Só que a economia e a política são um casal inseparável. Este domínio chinês levantará problemas gravíssimos. Com ele virá um domínio daquilo a que poderíamos chamar de modelo social chinês: enorme aumento de produtividade com um amento dos rendimentos do trabalho medíocre e um capitalismo autoritário, que garante através da repressão a contenção dos direitos laborais.

Esta ascensão chinesa dá à maior ditadura do Mundo um poder que devemos temer. Com a Europa e os EUA subjugados a este extraordinário credor, qualquer denúncia ou acção contra a violação dos direitos humanos na China poderá sair bastante cara. A imagem de umas dezenas de manifestantes obrigados a protestar, em Lisboa, bem longe dos olhos do presidente da China é um pequeno exemplo do que nos espera. A verdade é esta: a principal potência do Mundo é uma ditadura e uma das razões porque é uma potência económica é a falta de liberdade dos seus trabalhadores.

Ao imporem, a partir de final dos anos 80, os seus dogmas ideológicos, os neoliberais condenaram o Ocidente ao seu próprio ocaso. A destruição sistemática do modelo social que garantiu décadas de prosperidade, a financialização do capitalismo e o enfraquecimento do poder político sobre o poder económico foram uma opção deliberada e tiveram um preço: a Era do Ocidente está a chegar ao fim. Infelizmente, ela não foi substituída por mais justiça nas relações internacionais. O novo império tem sede numa ditadura. E o seu domínio é um perigo para as democracias no Mundo, para os direitos dos trabalhadores e para a nossa liberdade.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira


Pedro Passos Coelho quer que se responsabilize "civil e criminalmente" os governantes que não cumpram os objectivos de governação. Incluindo as derrapagens nas despesas públicas. A proposta pode funcionar bem como "sound byte" de pré-campanha - e levaria muitos companheiros de partido à barra de tribunal -, mas não vale mais do que isso. É um disparate jurídico e uma barbaridade política.

Quem pode e deve responsabilizar os governos pelos seus erros são os eleitores. E querer substituir o julgamento político pelo julgamento judicial e os cidadãos por juízes é uma demonstração de incompreensão do que é a democracia. Mas é mais do que isso: é uma desresponsabilização dos portugueses, que foram quem escolheu quem os foi governando. São eles que, avaliando a cada momento o que fazem os governantes, os devem e podem punir.

Melhor seria que Passos Coelho defendesse, com actos, uma prioridade absoluta no combate ao que já é ilegal: o tráfico de influências que levou a muitos dos mais ruinosos negócios do Estado com privados e a corrupção que mina a nossa democracia. Para isso sim, servem os tribunais, as polícias e leis eficazes que precisam do empenhamento dos eleitos. A política, essa, resolve-se no terreno político. E nesse terreno, PS e PSD dividem responsabilidades na falta de rigor, competência e honestidade.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Domingo, 7 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira
O candidato à Presidência da República Manuel Alegre afirmou hoje que a greve geral de 24 de Novembro será “muito importante” se funcionar como “alerta à sociedade e como factor capaz de criar uma nova dinâmica social”.

“Eu penso que a greve geral vai ser um momento de grande significado sindical, político e democrático”, afirmou Manuel Alegre. O candidato a Belém, que intervinha no encerramento do IX Congresso da Corrente Sindical Socialista da CGTP, sublinhou ter tido “sempre uma posição muito clara” relativamente ao direito à greve e considerou “curioso que ninguém” tenha confrontado Cavaco Silva sobre a iniciativa de dia 24.

“A minha posição é muito clara, eu sempre defendi o direito à greve e considero muito importante esta greve geral, não apenas como manifestação da liberdade de expressão e do direito de protesto, mas como alerta à sociedade e como um factor capaz de criar uma dinâmica nova, social, que abra o caminho à mudança e que abra o caminho à procura de novas soluções e de alternativas sociais”, declarou.

O candidato presidencial apoiado pelo PS e pelo BE teceu um cenário dramático da situação do país e defendeu que “com políticas de austeridade, com recessão, com desemprego e com agravamento das desigualdades, não sairemos deste círculo vicioso”. “A recessão traz recessão, a austeridade traz austeridade, o desemprego traz desemprego, nós precisamos é de políticas de emprego e de crescimento económico”, advogou. “Estão-nos a impor as mesmas receitas que provocaram a crise e, portanto essas receitas vão continuar a agravar a crise, as desigualdades, a pobreza, o desemprego”, acrescentou.

Publico

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
O confronto entre o Porto e o Benfica deixa sempre os adeptos do meu clube numa situação difícil. Há, perante isto, três tipos de sportinguistas: os tácticos, os automáticos e os éticos Os tácticos fazem contas. Estão contra o que estiver melhor na tabela ou mais ameaçar uma determinada posição do seu clube. Os automáticos estão sempre contra o Benfica. Os éticos, a não ser que razões pragmáticas ditem o contrário, estão contra o Porto.

O Benfica é seguramente o principal adversário do Sporting. O mais irritante dos adversários, na verdade. Fanfarrão por natureza. Vivendo à sombra das glórias passadas, sem que o presente pouco brilhante perturbe a sua injustificada autoconfiança. E estão, para os sportinguistas de Lisboa, demasiado próximos. São vizinhos, amigos, familiares. São eles que nos dizem, contra todas as evidências, que apoiam o maior clube do Mundo.

Mas, ainda assim, incluo-me seguramente na terceira corrente, muito minoritária entre os sportinguistas. Porque o Porto não é um adversário. É, com a bonomia e ausência de ódio que o futebol exige, o que de mais próximo há de um inimigo. Contra o Benfica move-nos o futebol. Contra o Porto move-nos a civilização contra a barbárie. Os portistas não são nem melhores nem piores do que os outros. Mas a sua direcção é de natureza diferente. Move-se pelo tráfico de influências, a batota e métodos inaceitáveis num Estado de Direito. Baseia a sua paixão num bairrismo provinciano, que se mistura facilmente com o ressentimento contra Lisboa.

Por isso, e sem sequer me dar ao trabalho de fazer contas, estarei pelo Benfica este fim-de-semana. Por mais que isso choque os que, sportinguistas como eu, ainda vivem de rivalidades antigas.

Publicado no Record

por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira


Lembram-se da comitiva de banqueiros à porta de Passos Coelho e Teixeira dos Santos a pedir responsabilidade aos políticos? Lembram-se de como foram tratados como homens de boa vontade que recordavam a políticos desnorteados as suas obrigações para com o País? Lá estava Ricardo Salgado, como porta-voz de todos eles.

Ficámos agora a saber que a PT pode vir a pagar aos seus 15 principais accionistas os dividendos ainda antes de entrar em vigor o novo orçamento, fugindo assim à cobrança de impostos que ele estipula. Entre os principais accionistas está, pois é claro, o BES.

A responsabilidade, as obrigações para com o País, o sentido patriótico... Tudo isso fica para os outros. O Estado pode perder 260 milhões de euros, metade do buraco que ficou para tapar depois da negociação do governo com o PSD.

Que esta gente trate de si, sabendo que de uma forma ou de outra se safa sempre de contribuir para a resolução dos problemas do País, só espanta quem vive noutro planeta. Para quê pagar impostos se os trouxas que trabalham por conta de outrem, os pensionistas, os beneficiários do abono de família, os funcionários públicos, os pobres e a classe média podem dar parte do pouco que têm?

O que me choca é que estes cavalheiros, que tão pouco fazem pelo País e dele tudo exigem, continuem a ser ouvidos como oráculos da Nação. Que tenham a última palavra sobre um orçamento para o qual não contribuem. Que insistam em falar de responsabilidade. Na verdade, tratam-se de sociopatas, incapazes de qualquer gesto de solidariedade e de dever perante a comunidade em que vivem, apenas movidos por uma ganância sem qualquer limite. Põem e dispõem ministros, pressionam o poder político sem se darem ao trabalho de serem discretos, mas não hesitam em saltar do barco quando todos são chamados a dar a sua parte. Espertos são eles. Idiotas somos nós.

Por isso, quando vierem com a conversa da irresponsabilidade da próxima greve geral, espero que ninguém lhes dê ouvidos. Já cansa tanta hipocrisia.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira
"Os Donos de Portugal - Cem Anos de Poder Económico" (Afrontamento) é um excelente documento para perceber quem é quem neste país. Uma das partes mais interessantes do livro trata do trânsito de quadros entre a política e os negócios, estudando o percurso de 115 ex-ministros e ex-secretários de Estado das Finanças e de outras pastas estratégicas.

Chega a algumas conclusões interessantes. Que há uma integração sistemática garantida por esta espécie de correios de interesses, portadores de informação valiosa e de capacidade de influência nos dois terrenos. Saltam de ministérios para conselhos de administração e têm participações cruzadas em várias empresas. Mira Amaral, Nogueira Leite, Murteira Nabo e Luís Todo Bom são os casos mais notórios deste tipo de 'globetrotters'. Que em extraordinários fenómenos de ascensão social a participação no governo é muitas vezes o momento crucial. Ou seja, o aparelho de Estado serve para moldar uma nova burguesia que se associa à velha de um século. E que a promiscuidade entre os principais grupos e os governos é absoluta. Se nuns casos o trânsito faz-se da política para os principais grupos, noutros, como é o caso do grupo Mello, faz-se através de um vai e vem indiscreto. Para se ter uma ideia, um em cada dez dos ex-governantes analisados passaram pelos órgãos sociais do grupo Espírito Santo e um em cada cinco pelos do BCP.

Olhando para esta impressionante rede de poder podemos perceber onde está a origem de algumas decisões ruinosas do Estado português, que hoje pagamos bem caras. É que nem são os que elegemos que nos governam nem somos nós o objeto do seu governo.

Texto publicado na edição do Expresso de 30 de outubro de 2010

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


A estrada de Manuel Alegre para Belém é estreita. Tem como vantagem o pouco entusiasmo que Cavaco Silva provoca nos seus potenciais eleitores. E o seu objectivo, por agora, é claro: conseguir que a esquerda não deixe de votar nas presidenciais para garantir uma segunda volta, onde a vida do actual Presidente da República se complicaria muito.

A maior dificuldade de Alegre são as contradições entre os seus próprios apoiantes. Vindo de uma candidatura sem padrinhos partidários, que tinha nessa sua limitação a sua grande vantagem, conquistou o apoio do PS e do Bloco de Esquerda. O primeiro, porque não podia dispensar um candidato que tivesse simpatias à esquerda. O segundo, porque não podia deixar de apoiar o socialista que mais claramente se opôs às opções mais desastrosas deste governo e que, estando claramente à esquerda, mais facilmente entrava no eleitorado socialista. Este dois em um, sendo uma vantagem, é também um problema. Poderia mesmo tornar-se numa soma negativa.

O pior que Manuel Alegre poderia fazer seria tentar agradar às segundas, quartas e sextas ao PS; às terças, quintas e sábados ao Bloco; e aos domingos aos seus antigos apoiantes. Quem tenta agradar a todos ao mesmo tempo quase nunca agrada a ninguém. Há equações impossíveis: em tempo de crise, não há como casar as direcções destes dois partidos. O mesmo não se pode dizer dos dois eleitorados: nem o eleitor do BE é estruturalmente anti-PS, nem o eleitor socialista está satisfeito com as grandes opções deste governo.

Manuel Alegre tem um caminho e tem sido esse que, nos últimos meses, tem seguido: não se preocupar com esta contradição. Dizer o que pensa e confirmar a independência que o levou a contestar Sócrates quando muitos socialistas que agora mostram incómodo seguiam o chefe. Sabemos que irá muitas vezes desagradar a direcção do PS, que o gostava de ver convertido a porta-voz do governo, e que irá desagradar à direcção do BE, que o gostava de ver como uma farpa no pé de José Sócrates.

Acontece que Alegre não é candidato a primeiro-ministro. É candidato a Presidente da República. Ninguém pergunta a Cavaco Silva como votaria este orçamento. É natural. Não o vai votar. Ninguém tem de perguntar a Alegre como votaria o orçamento. Não é ao lugar de deputado que se candidata. O que interessa em Alegre e em Cavaco não é se apoiam ou se se opõem a este governo. Até porque não sabemos se conviverão muito tempo com ele. O que interessa é saber que valores fundamentais defenderão no seu mandato. E aí Alegre tem um discurso claro. Bem mais claro do que o de Cavaco, para dizer a verdade: a defesa do Estado Social, da Escola Pública, do Serviço Nacional de Saúde e de direitos laborais fundamentais. A agenda que pode hoje definir aquilo a que genericamente chamamos de "esquerda". E que une, se não as direcções do PS e do BE, as suas respectivas bases sociais de apoio.

Se Manuel Alegre for igual a si próprio e defender aquilo em que acredita, esquecendo o que os partidos que o apoiam esperam dele, estes apoios não serão um problema para si. Por o PS e o BE que apoiarem Manuel Alegre na sua candidatura à Presidência ele não tem de apoiar nem o PS nem o BE nas suas guerras políticas. A abrangência ideológica dos seus apoiantes só pode ser uma vantagem.

por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira
Pedro Passos Coelho podia ter escolhido não se envolver na negociação do orçamento. Abstinha-se por um qualquer imperativo nacional e responsabilizava o governo pelas suas opções. Poderia e seria criticado pela demissão, mas nunca mais do que isso.

Optou por negociar. E ao fazê-lo colocou a sua assinatura neste orçamento. Procurou vitórias numa derrota, julgando que podia ficar apenas com a parte boa. Não pode. Não é assim que as coisas funcionam. Não pode ficar com o leite achocolatado e desresponsabilizar-se pelos cortes salariais dos funcionários públicos e pelos cortes nas prestações sociais.

Mas, neste caso, a sua responsabilidade vai mais longe. Quando se decide negociar fazem-se escolhas. E Passos Coelho fez as suas. Decidiu exigir umas coisas e não outras. Decidiu obrigar o governo a ceder nas deduções e não o fazer no congelamento das pensões e dos cortes no abono de família. Decidiu reduzir aí a receita fiscal tornando impossível não cortar a despesa social em tempo de crise. É uma opção legitima mas cheia de significado político. O que o PSD não pode fazer, se quiser ser honesto, é continuar a lamentar a desigualdade dos sacrifícios exigidos aos portugueses e o carácter antisocial deste orçamento quando essa não foi a sua prioridade. Não pode querer participar na escrita do guião desta tragédia e depois fingir que esta trama não é sua. É. E terá, com o PS, de pagar por ela.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 2 de Novembro de 2010
por Daniel Oliveira


Lula da Silva era um homem impreparado. Um populista. Um radical. Um analfabeto. Passados oito anos da sua chegada ao Planalto, a mesma gelatina de comentadores que, no Brasil e no Mundo, viam em Lula o anúncio do desastre não lhe poupam elogios. Os números, que já aqui deixei (entre 2003 e 2008 criaram-se 14 milhões de postos de trabalho na economia formal, os brasileiros que viviam abaixo de limiar de pobreza passaram de 43% para 29%, lançou-se o programa Bolsa Família e aumentou-se o poder de compra do salário mínimo em 50%), falam por si. Não há como negar os resultados de uma política expansionista direccionada a uma maior justiça na distribuição dos rendimentos.

O governo de esquerda de Luís Inácio Lula foi provavelmente o melhor da história do Brasil. E se, por esse mundo, a receita da destruição do papel redistributivo do Estado, tudo falhou, o seu oposto deu certo no Brasil. Com todos os erros, o Brasil é hoje uma história de sucesso.

Sobre Dilma Rousseff, diz-se agora que lhe falta o que, no passado, nunca reconheceram em Lula da Silva. Diz-se, mais uma vez, que se trata  de uma radical. Diz-se que venceu apenas graças ao prestígio de Lula. O que se esquecem de dizer é que a popularidade de Lula não vem apenas das suas inegáveis qualidade pessoais - que já eram inegáveis antes dele chegar a presidente. Vem de uma política e dos seus resultados. Uma política que tem na história do Partido dos Trabalhadores, encontra no seu caldo ideológico e na sua base social uma coerência.

Houve cedências. Sobretudo em relação às instituições financeiras, que sugam enormes recursos de um Brasil em crescimento, e aos corruptos. Mas ontem não foi apenas Dilma que venceu. Não foi sequer apenas Lula que venceu. Foi um programa político que contrariou décadas de desigualdade, vistas como uma fatalidade na América Latina. Foi uma alternativa de esquerda que provou que não há desenvolvimento económico sustentável que não tenha a justiça social como primeiro objectivo.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010
por Daniel Oliveira


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (…)

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida intima, descambam na vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na politica portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (…)

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do pais, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre, – como da roda duma lotaria.

A justiça ao arbítrio da Politica, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas;

Dois partidos (…), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (…) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, – de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (…)”

Guerra Junqueiro, A Pátria, 1896

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Este orçamento tem de ser aprovado. Porque é bom? Não, é péssimo. Porque nos salva. Não, vai-nos afundar ainda mais. Porque ajuda a economia? Não, vai rebentar com a economia.

Tem de ser aprovado porque não é aqui que se governa.

Não é aqui que se governa porque a Europa é governada por dois ou três países. Os restantes são meros adereços. A estrutura institucional do Euro e o conteúdo do último tratado que assinámos assim o determinam. Temos uma moeda à qual não corresponde nenhum poder politico com legitimidade democrática e real poder. O resultado é este: há o poder da chantagem sem a compensação da solidariedade.

Não é aqui que se governa porque a financialização do capitalismo tornou o poder difuso e os Estados reféns do caprichoso jogo dos mercados. E esse poder difuso, sem a força da legitimação do voto, é estruturalmente antidemocrático. Quem julgava que o mercado livre correspondia ao máximo de democracia tem aqui a resposta. A democracia só casa com o mercado se tiver o Estado democrático como padrinho.

O que este orçamento nos diz, quando todos o acham péssimo e todos o querem defender, é que não é apenas a economia que está em crise. É a democracia. O que toda esta charada nos devia dizer, aos portugueses e aos europeus, é que vivemos uma farsa. E que um dia isto rebentará por algum lado. Os povos europeus não aguentarão muito mais vezes a chantagem de pagar a crise provocada por outros. Aqueles que salvámos há dois anos e que agora nos apontam uma pistola à nuca. Um dia os europeus vão ter de exigir que a política e as instituições em que ela é legitimada pelo povo se imponham. Esperemos que essa exigência venha a tempo de ter uma natureza democrática.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010
por Daniel Oliveira


Ontem, no telejornal da SIC, Eduardo Catroga disse o que teria feito se fosse ministro das Finanças, esquecendo-se momentaneamente que já foi ministro das Finanças. Não teria esbanjado dinheiro e, sobretudo, não empurraria para o futuro investimentos do presente. E deu o exemplo como a SCUT. Concordo. Já escrevi aqui que as Parecerias Público-Privadas são um dos cancros do Estado. Além de saírem mais caras apenas para difarçarem o défice e limitarem por décadas as grandes opções do Estado, criam um ambiente de promiscuidade entre o poder político e as empresas.

Depois comecei a pensar: mas uma das primeiras grandes obras que se socrreu deste tipo de financiamento - e uma das mais ruinosas -, foi feita quando? A concessão foi dada em Abril de 1994 e a construção começou em Fevereiro de 1995. Tratava-se da segunda travessia do Tejo. Deu e continua a dar muito a ganhar à Lusoponte e muito a perder aos cofres do Estado. Era então o ministro das Obras Públicas Joaquim Ferreira do Amaral. As condições foram as que se conhecem. O mesmo Ferreira do Amaral acabou à frente da empresa que ganhou com o negócio.

Quem era então o ministro das Finanças? Nada mais nada menos do que Eduardo Catroga (entre Dezembro de 1993 e Outubro de 1995). É por isso que as suas declarações sobre o Estado gordo e a irresponsabilidade de quem governa valem o que valem. Se ele fosse ministro das Finanças faria provavelmente coisas muito acertadas. Incluindo travar este género de negócios que deixaram o Estado empenhado por décadas. Mas a única coisa que interessa não é o que faria se fosse ministro das Finanças, mas o que fez quando foi ministro das Finanças. E a verdade é que deixou fazer o que agora lhe parece inaceitável.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


O Estado é gordo. É isto que temos ouvido vezes sem conta. Tantas vezes dito por gente que, de uma forma ou de outra, viveu quase sempre à sombra dele. Como os católicos não praticantes, só se lembram de Deus na hora do sufoco.

Agora, que vai haver cortes a sério, é que vamos tirar a prova dos nove. Veremos se o sector privado vai finalmente gastar qualquer coisa que se veja em investigação e desenvolvimento quando não tiver as universidades públicas para fazer esse trabalho. Quero ver se as empresas começam a usar a lei do mecenato à cultura porque isso lhes dá prestígio.

Quero ver se em vez de mamarrachos encomendados a engenheiros do gabarito de José Sócrates vai haver encomendas dos privados a arquitetos que não destruam a paisagem. Quero ver os hospitais privados a tratarem do que é caro e dá prejuízo. Empresas a apagar fogos. A garantir escolas economicamente acessíveis. E quero ver os privados a contratar as pessoas mais qualificadas deste país.

É que não é por acaso que a média salarial no Estado é mais alta do que no privado. Grande parte dos mais escolarizados é para lá que vai. A maioria das empresas, em Portugal, prefere o que é barato e descartável.

Agora sim, vamos poder ver as maravilhas do Estado mínimo que nos andam a vender há anos. Quando faltarem polícias na rua, não resmungue. Quanto não houver meios para combater os fogos, não se indigne. Quando as escolas e cresces fecharem, as universidades se transformarem em depósitos ainda mais inúteis e não houver gente qualificada para trabalhar em lado nenhum, sorria.

Quando fecharem os centros de saúde e comprar medicamentos para ficar vivo for um luxo, não se apoquente. Morra sabendo que o Estado sempre foi o culpado de todos os nossos males. E maravilhe-se com a sua elegância depois de uma boa dieta.

O que me espanta, o que sempre me espantou, é haver tantos, entre os que devem à maternidade pública o seu nascimento seguro, à escola pública quase tudo o que sabem, à universidade pública a sua ascensão social e cultural, ao Estado a sua segurança e ao hospital público a sua sobrevivência, a pedirem o seu emagrecimento.

Uns são apenas egoístas: garantida que está a sua condição, os outros que façam pela vida. Outros são só parvos. Esses vão ver agora como elas mordem.

Publicado na edição de 23 de Outubro do Expresso

por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010
por Daniel Oliveira
Com as negociações rompidas, o PSD mantém o tabu sobre o sentido do seu voto. Diz que espera pela reacção dos mercados. Já Teixeira dos Santos diz que sim, é "inflexível". Ninguém lhe explicou que para ser inflexível precisaria de ter maioria absoluta. Não tem. A não ser que consiga convencer alguém que consegue cumprir as desastrosas metas que definiu sem o PSD, não se percebe bem que vantagens lhe traz a inflexibilidade.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


No seu discurso de ontem, Cavaco Silva quis convencer o País que fez ou poderia ter feito alguma diferença na resolução dos problemas que enfrentamos. A diferença que podia ter feito foi há muitos anos, quando nos governou. Agora, como se vê no impasse da negociação do Orçamento, é carta que não conta.

Na sua intervenção, saltou à vista um pequeno truque. Daqueles que mostram que a demagogia nem sempre se serve aos gritos. E Cavaco Silva é mestre em usá-la em sussurro. Anunciou que terá uma campanha barata. Até aí, tudo certo. Deviam ser todas. Mas acrescentou que não colocará cartazes. Porque os tempos não estão para isso. Cavaco Silva sabe que as pessoas olham para as campanhas eleitorais como um desperdício e explora a coisa.

A decisão não espanta. Se olharmos bem para agenda do Presidente da República, Cavaco Silva está em campanha há mais de um mês. Multiplica-se em visitas e declarações. Não o faz como candidato, mas o resultado é exactamente o mesmo: aparece diariamente na televisão. Ninguém o pode condenar por isso. Mas a verdade é que a sua campanha é paga pelo Estado e não entra na contas da campanha. Cavaco Silva dispensa os cartazes porque aparece no mais importante de todos: os televisores dos portugueses. Não precisa de se dar a conhecer porque é o Presidente em exercício. Não precisa de se bater pela visibilidade pública porque é Chefe de Estado. Ao lançar esta cartada, quase como um desafio (não se limitou a decidir gastar pouco, anunciou-o e deu-lhe destaque), pede aos outros que, acompanhando-o, fiquem numa posição de inferioridade nas eleições.

É que se fosse uma questão de princípio, Cavaco Silva teria feito isto quando não tinha a vantagem de ser Presdiente. Não foi o caso. Ele e Mário Soares gastaram em 2006 mais de três milhões de euros. O triplo do que gastou Manuel Alegre; quatro vezes mais do que Jerónimo de Sousa; sete vezes mais do que Francisco Louçã; e quase 150 vezes mais do que Garcia Pereira. Aí sim, o desafio seria interessante. Agora, é apenas propaganda. E de borla.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
De que falamos quando falamos de liberdade de expressão? Nos últimos anos, os grandes meios de comunicação social fazem alarde da liberdade de expressão contra alegadas interferências do Estado, mas poderemos falar de liberdade de expressão no quadro de uma economia dos media em que a concentração impera? Neste contexto, importa atender a novas formas de comunicação que, à margem do controlo directo do Estado e dos grandes grupos privados, têm vindo a tecer redes muito vastas em que a fronteira entre emissor e receptor parece fragilizar‑se. É o caso de uma série de meios suportados pela internet, que, aliados aos novos desenvolvimentos tecnológicos, permitem colocar em cima da mesa novas possibilidades de estender o direito de emissão televisiva ou radiofónica além das empresas públicas e das empresas privadas de comunicação.

Media, propriedade e liberdade
Nuno Ramos de Almeida e Rui Pereira
Teratro Maria Matos, quarta 27 Outubro 18h30

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 26 de Outubro de 2010
por Daniel Oliveira


Sem contar com a sua breve passagem pela pasta das Finanças, conhecemos cinco cavacos. Mas todos os cavacos vão dar ao mesmo.

O primeiro Cavaco foi primeiro-ministro. Esbanjou dinheiro como se não houvesse amanhã. Desperdiçou uma das maiores oportunidades de deste País no século passado. Escolheu e determinou um modelo de desenvolvimento que deixou obra mas não preparou a nossa economia para a produção e a exportação. O Cavaco dos patos bravos e do dinheiro fácil. Dos fundos europeus a desaparecerem e dos cursos de formação fantasmas. O Cavaco do Dias Loureiro e do Oliveira e Costa num governo da Nação. Era também o Cavaco que perante qualquer pergunta complicada escolhia o silêncio do bolo rei. Qualquer debate difícil não estava presente, fosse na televisão, em campanhas, fosse no Parlamento, a governar. Era o Cavaco que perante a contestação de estudantes, trabalhadores, polícias ou utentes da ponte sobre o Tejo respondia com o cassetete. O primeiro Cavaco foi autoritário.

O segundo Cavaco alimentou um tabu: não se sabia se ficava, se partia ou se queria ir para Belém. E não hesitou em deixar o seu partido soçobrar ao seu tabu pessoal. Até só haver Fernando Nogueira para concorrer à sua sucessão e ser humilhado nas urnas. A agenda de Cavaco sempre foi apenas Cavaco. Foi a votos nas presidenciais porque estava plenamente convencido que elas estavam no papo. Perdeu. O País ainda se lembrava bem dos últimos e deprimentes anos do seu governo, recheados de escândalos de corrupção. É que este ambiente de suspeita que vivemos com Sócrates é apenas um remake de um filme que conhecemos. O segundo Cavaco foi egoísta.

O terceiro Cavaco regressou vindo do silêncio. Concorreu de novo às presidenciais. Quase não falou na campanha. Passeou-se sempre protegido dos imprevistos. Porque Cavaco sabe que Cavaco é um bluff. Não tem pensamento político, tem apenas um repertório de frases feitas muito consensuais. Esse Cavaco paira sobre a política, como se a política não fosse o seu ofício de quase sempre. Porque tem nojo da política. Não do pior que ela tem: os amigos nos negócios, as redes de interesses, da demagogia vazia, os truques palacianos. Mas do mais nobre que ela representa: o confronto de ideias, a exposição à critica impiedosa, a coragem de correr riscos, a generosidade de pôr o cargo que ocupa acima dele próprio. Venceu, porque todos estes cavacos representam o nosso atraso. Cavaco é a metáfora viva da periferia cultural, económica e politica que somos na Europa. O terceiro Cavaco é vazio.

O quarto Cavaco foi Presidente. Teve três momentos que escolheu como fundamentais para se dirigir ao País: esse assunto que aquecia tanto a Nação, que era o Estatuto dos Açores; umas escutas que nunca existiram a não ser na sua cabeça sempre cheia de paranóicas perseguições; e a crítica à lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo que, apesar de desfazer por palavras, não teve a coragem de vetar. O quarto Cavaco tem a mesma falta de coragem e a mesma ausência de capacidade de distinguir o que é prioritário de todos os outros.

Apesar de gostar de pensar em si próprio como um não político, todo ele é cálculo e todo o cálculo tem ele próprio como centro de interesse. Este foi o Cavaco que tentou passar para a imprensa a acusação de que andaria a ser vigiado pelo governo, coisa que numa democracia normal só poderia acabar numa investigação criminal ou numa acção política exemplar. Era falso, todos sabemos. Mas Cavaco fechou o assunto com uma comunicação ao País surrealista, onde tudo ficou baralhado para nada se perceber. Este foi o Cavaco que achou que não devia estar nas cerimónias fúnebres do único prémio Nobel da literatura porque tinha um velho diferendo com ele. Porque Cavaco nunca percebeu que os cargos que ocupa estão acima dele próprio e não são um assunto privado. Este foi o Cavaco que protegeu, até ao limite do imaginável, o seu velho amigo Dias Loureiro, chegando quase a transformar-se em seu porta-voz. Mais uma vez e como sempre, ele próprio acima da instituição que representa. O quarto Cavaco não é um estadista.

E agora cá está o quinto Cavaco. Quando chegou a crise começou a sua campanha. Como sempre, nunca assumida. Até o anúncio da sua candidatura foi feito por interposta pessoa. Em campanha disfarçada, dá conselhos económicos ao País. Por coincidência, quase todos contrários aos que praticou quando foi o primeiro Cavaco. Finge que modera enquanto se dedica a minar o caminho do líder que o seu próprio partido, crime dos crimes, elegeu à sua revelia. Sobre a crise e as ruínas de um governo no qual ninguém acredita, espera garantir a sua reeleição. Mas o quinto Cavaco, ganhe ou perca, já não se livra de uma coisa: foi o Presidente da República que chegou ao fim do seu primeiro mandato com um dos baixos índices de popularidade da nossa democracia e pode ser um dos que será reeleito com menor margem. O quinto Cavaco não tem chama.

Quando Cavaco chegou ao primeiro governo em que participou eu tinha 11 anos. Quando chegou a primeiro-ministro eu tinha 16. Quando saiu eu já tinha 26. Quando foi eleito Presidente eu tinha 36. Se for reeleito, terei 46 quando ele finalmente abandonar a vida política. Que este homem, que foi o politico profissional com mais tempo no activo para a minha geração, continue a fingir que nada tem a ver com o estado em que estamos e se continue a apresentar com alguém que está acima da politica é coisa que não deixa de me espantar. Ele é a política em tudo que ela falhou. É o símbolo mais evidente de tantos anos perdidos.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010
por Daniel Oliveira


O Banco de Portugal está a esquivar-se à redução dos salários dos seus funcionários. Diz que essas reduções têm de ser aprovadas pelo Banco Central Europeu. Porque o BCE manda implementar politicas de austeridade mas trata dos seus, pode ser que se safem. É que em vários países que estão a aplicar as medidas mais duras de cortes salariais os bancos centrais foram olimpicamente poupados. E, em geral, o BCE tem exigido que as reduções de salários dos governadores entrem apenas em vigor em novos mandatos. Tão lestos que são a cortar nos outros, tão seguros que são a prescrever estricnina aos pacientes europeus, tão rigorosos que são com os seus próprios direitos adquiridos.

Note-se que o Banco de Portugal não está a fazer nenhuma pressão para ser a primeira instituição pública a fazer os cortes, dando o exemplo do que aconselha aos demais. Está à espera que o BCE diga que não para ser poupado. E isto naquela que é, provavelmente, a instituição do Estado com os mais escandalosos privilégios. Aquela da qual muitos dos principais advogados da sangria salarial em todo o País recebem reformas pornográficas, por vezes resultado de passagens fugazes pelo Banco.

Esta é apenas mais uma história bem reveladora da verdadeira natureza desta crise. Uma história em que o sacrifício é sempre transferido para o vizinho de baixo. Porque esta crise não é apenas financeira. É ética. Aliás, se se lembram como isto começou, a primeira resulta da segunda.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010
por Daniel Oliveira
Ficámos ontem a saber que o Estado vai enterrar mais 400 milhões de euros no BPN, através de um aumento de capital antes da reprivatização. Vale a pena recordar que não houve interessados para a venda da rede de balcões, por 180 milhões. Com este aumento de capital, o Estado já enfiou naquele buraco sem fundo, directa e indirectamente, cinco mil milhões de euros. Mais coisa menos coisa o mesmo que vai arrecadar com o plano de austeridade que vai destruir a economia do País, já que a CGD já lá injectou, com o aval do Estado, 4.600 milhões.

As perplexidades que tudo isto provoca a qualquer cidadão cumpridor das suas obrigações são evidentes.

A primeira: foi para salvar a banca das suas próprias aventuras que toda a Europa rebentou com as finanças públicas. É para se financiarem junto da banca, para sair deste buraco, que muitos países europeus continuamos a cortar nas despesas do Estado. E ainda há quem tenha a suprema lata de nos vender que só estamos dependentes da banca porque lhes pedimos emprestado. Esquecendo que, ao que parece, a banca não se sente em dívida connosco por lhe termos salvado a pele em tantos países.

A segunda: uma fraude que leva a este descalabro financeiro e que afectará os contribuintes resulta em apenas um cidadão na prisão. Todos os restantes envolvidos nos negócios da SLN passeiam-se alegremente, gozando os seus proventos. E entre eles estão ex-governantes. Fosse um pilha-galinhas, já estaria atrás das grades. E já estaria o CDS irado com a falta de autoridade do Estado, o PSD a falar do laxismo socialista, Cavaco Silva a comunicar a sua preocupação com a falta de ordem e o governo a prometer um reforço do contingente policial. Como é coisa que todos, mais tarde ou mais cedo, vão pagar com os seus impostos e com os seus empregos, nada de especial há a dizer. Os ladrões, já se sabe, são os beneficiários do Rendimento Social de Inserção. É com os 80 euros que podem receber por mês que nos devemos preocupar.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010
por Daniel Oliveira
Pedro Passos Coelho conseguiu transformar uma situação política que tinha tudo a seu favor num jogo em que perde sempre. Começou por dar todos os sinais que chumbaria o orçamento. Todos pensaram que era bluff. Ou que, pelo menos, Passos Coelho tivesse na manga uma proposta de orçamento de austeridade (pois se é isso que ele defende) alternativa a esta. Nunca deu qualquer sinal de a ter.

Começou por dizer que com aumento de impostos nada feito. Ninguém acreditou. Depois os aumentos de impostos podiam ser apenas um bocadinho. Ninguém acreditou. Agora os aumentos de impostos podem ser um bocadinho e o governo não tem de aceitar tudo. E quanto aos cortes na despesa para compensar a coisa, nada que de concreto.

Passos Coelho tem de se decidir: ou é a favor de um orçamento de austeridade ou é contra. Ou defende o Estado Social que repentinamente apareceu na sua boca e é contra os cortes nas prestações sociais, na educação e na saúde ou não faz demagogia inconsequente. Ou considera que os sacrifícios estão mal distribuídos e tem a coragem de propor outros sacrificados ou aceita este ataque aos mais pobres. O que já não se aguentam são flique-flaques à retaguarda.

Uma coisa é certa: Passos Coelho já perdeu. Perde o partido e os senhores que podem ajudar o partido a chegar ao poder se votar contra o orçamento. Perde a face e a credibilidade se o viabilizar. E foi ele que escolheu este beco sem saída em que se enfiou. Ou é mal de quem quer fazer bluffs e não sabe como, ou é mal de quem se faz de forte e não sabe que é fraco.

Texto escrito no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010
por Daniel Oliveira


Se a economia falhar este Orçamento não vai resolver nem os nossos problemas financeiros mais urgentes. José Sócrates arriscou-se, com previsões macroeconómicas irrealistas, que não medem o que vai acontecer à procura interna e às despesas sociais que o aumento do desemprego vai trazer e que são de um extraordinário optimismo em relação às exportações, negando, ele próprio, aquilo que muito bem tem dito: estamos perante uma crise europeia. Isto, com a distribuição desigual dos sacrifícios, é o pecado do Orçamento.

Tem-se escrito e dito que não há alternativa a este Orçamento. É péssimo mas tem de ser. Acontece que dificilmente podemos chamar a isto uma alternativa a qualquer coisa. O resultado final não será melhor do que não fazer nada ou fazer o contrário disto.

A única alternativa viável é europeia. Porque a moeda é europeia. Porque a economia é europeia. Porque o mercado é único e europeu. Porque a crise é europeia. Só que isso obrigaria os portugueses a abandonar a menorização a que se condenam e a querer ter um papel na Europa.

Começar por aceitar, a este nível, os seus erros. Empenhados que estiveram em ser o bom aluno europeu e a impressionar os seus parceiros, que, como é evidente, estavam a pensar em si próprios, aceitaram tudo, incluindo opções que foram a nossa desgraça. Muitos queixam-se hoje da impossibilidade do BCE financiar directamente os Estados europeus, passando o dinheiro para a banca que lhe acrescenta juros proibitivos. E queixam-se do "pacto estúpido" (o PEC), que obrigando os países a cumprir défices cegos administrativamente determinados, levaram os Estados a gastar mais, e não menos. As Parecerias Público-Privadas resultam disso mesmo: cumprir o défice adiando o pagamento da conta com mais custos a longo prazo. E queixam-se da nova arquitectura institucional da Europa, que retirou aos países periféricos qualquer capacidade de decisão.

Mas onde estava Portugal de cada uma das vezes que estas decisões foram tomadas? A abanar a cauda, com a língua de fora e a pata estendida. Basta recordar a alegria a quando da aprovação do Tratado de Lisboa, que foi, como reconhece qualquer pessoa intelectualmente honesta, uma tragédia para Portugal. Porreiro, pá! E o primeiro que ele se opusesse era rapidamente carimbado com a o derradeiro insulto: anti-europeísta.

O que está feito não pode ser mudado. Fica apenas de lição. Mas podemos aprender com o erro. E um passo normal seria países como Portugal, Irlanda, Espanha e Grécia, em vez de se autoflagelarem e aceitarem tudo em silêncio, entenderem-se numa estratégia comum para se baterem pelos seus interesses. Deixarem de se portar como se estivessem na União por favor e agirem como aliados naturais que são. Aliados que não têm medo de apanhar lepra por se juntarem numa mudança no rumo que a Europa está a seguir. E se os governos não o fazem, que o exijam os cidadãos. Mas para isso falta abandonarem este desesperante complexo de inferioridade e impotência.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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