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Arrastão: Os suspeitos do costume.

"O amor é mais forte do que o ódio"

Sérgio Lavos, 09.11.11

 

Depois do ataque à redacção do Charlie Hebdo da semana passada, um dia após o jornal ter anunciado que Maomé seria o director do número seguinte, a nova capa do semanário satírico é uma proposta de reconciliação entre os humoristas e o mundo islâmico. No humor, não pode haver temas tabus. E muito menos intimidações à liberdade de expressão. Agora nas instalações do Libération, esperemos que os jornalistas e humoristas continuem a fazer o seu trabalho sem ameaças.

O terror dos outros

Sérgio Lavos, 25.07.11

 

Não acho que esteja a polir o revólver, caro Francisco, mas julgo que a expressão que usa facilmente pode servir para encostar alguém às cordas do preconceito. Atenção: esse tal "preconceito antropológico ocidental" pode até ser real em alguns casos. Contudo, a sua existência não impediu que esteja a ser feito o necessário para manter a ameaça do terrorismo islâmico sob controlo. É uma questão perfeitamente secundária, neste caso, e, devolvendo o brinde, a frase, no seu texto, é apenas usada em tom provocatório. 

 

A questão parece-me muito simples: o terrorismo deve ser tratado como aquilo que é, um acto criminoso. E as democracias devem evitar que aconteça, sempre (mas não recorrendo a qualquer meio, seja a tortura ou, mais grave, uma guerra preventiva). Seja de extrema-direita neonazi, de extrema direita islâmica ou de extrema-esquerda. Agora, tentar perceber as razões da existência de extremismos islâmicos violentos não me parece que seja consequência de um "preconceito antropológico ocidental". E certamente o Francisco concordará comigo se eu disser que a agressividade do mundo islâmico em relação ao Ocidente é, em parte, resultado directo da violência exercida sobre os países árabes. Violência em forma de ocupação territorial - como é o caso da presença de Israel na Palestina -; violência de guerras preventivas que pouco ou nada ajudam à pacificação do Médio Oriente - como é o caso do Iraque; e violência exercida indirectamente, por via do apoio que as democracias ocidentais dão às petroditaduras do Golfo. Pretendo com esta enumeração desculpar actos terroristas? De modo algum, porque um crime é sempre um crime, seja qual for a razão por detrás dele, e matar inocentes a milhares de quilómetros de distância é, definitivamente, um crime. Como também é crime a morte de civis em resultado de ocupações de países soberanos. E atenção, que não falo de guerras entre nações; falo de ocupações criminosas, nas quais a discrepância de poder entre as forças militares em combate não permite que se possa falar em guerra. 

 

Do mesmo modo, reduzir o duplo atentado de sexta-feira a um acto de um alucinado é esvaziar a importância das motivações políticas de Anders Breivik. Mas é isso que estamos a ouvir diariamente: Anders é um louco solitário, e o facto de ter ligações à extrema-direita é apenas um pormenor. É um caso previsível de double standards: a loucura nunca é a causa primária para atentados perpetrados por terroristas islâmicos. Porquê? Porque um acto de loucura é um acto solitário; e sendo um acto solitário, é uma excepção, não nos vincula, enquanto sociedade, ao indivíduo que o pratica. Enquanto que um atentado terrorista, despojado da insanidade solitária do atirador que mata dezenas, vincula toda uma cultura. Excluímos os nossos loucos, diferenciamo-los do resto da sociedade, afirmando: "nós não somos assim, isto é uma excepção". Mas vinculamos milhões de muçulmanos à violência praticada por uma minoria (de loucos de Deus). De que lado está o "preconceito antropológico ocidental"?

Arrependimentos selectivos

Sérgio Lavos, 24.07.11

 

Até agora, apenas uma reacção nos principais blogues de direita ao duplo atentado na Noruega. Francisco Mendes da Silva sente-se satisfeito pela justiça não ir ser atrapalhada pelo "arrependimento antropológico ocidental". Não percebo muito bem o alcance da expressão, e provavelmente é melhor que não perceba, tão perto ela está de algumas ideias expressas em fórums neonazis e no testamento espiritual do terrorista norueguês. Mas percebo que ele se sinta satisfeito por a justiça poder actuar liberta de tais constrangimentos. Curiosamente, o tal "arrependimento antropológico ocidental" não tem impedido, desde o 9/11, que cada célula islâmica suspeita tenha sido vigiada e quase sempre desmantelada pelos eficazes serviços secretos dos países ocidentais. Bom trabalho, no que diz respeito ao terrorismo praticado pelos suspeitos do costume, os muçulmanos. Mas pelos vistos, têm-se esquecido de cultivar o mesmo zelo preventivo em relação aos grupos de extrema-direita que têm crescido exponencialmente nos últimos 10 anos. Eu, para além de ficar contente pela justiça poder agora funcionar liberta do "arrependimento antropológico ocidental" (como se até agora não tivesse conseguido julgar os suspeitos de conspiração terrorista por causa desses constragimentos - mas imagino que o escriba do 31 da Armada nunca tenha ouvido falar em Guantanamo), não fico nada contente por, até agora, estes grupos de enlouquecidos delinquentes, racistas e xenófobos, não terem sido devidamente controlados. Como não fico nada satisfeito por se aceitar tão alegremente que líderes europeus como Sarkozy, Merkel ou Berlusconi partilhem demasiadas vezes o discurso xenófobo com os grupos de extrema-direita. Talvez seja mesmo a hora de mudar de atitude, acabar com a benevolência com que temos olhado para o crescimento destas ideias políticas na Europa. O maior perigo pode não vir de fora, mas estar a germinar cá dentro. E não há qualquer "arrependimento antropológico ocidental" que nos impeça de actuar. O mais rapidamente possível.

Fundamentalismo religioso

Sérgio Lavos, 23.07.11

 

Sobre o tratamento que alguns (a maioria, digamos) media deram, desde o início, aos atentados na Noruega, ler este post da Palmira Silva no Jugular. E ficam algumas perguntas: um islâmico que leva a cabo um atentado poderá sempre ser um fundamentalista islâmico? Poderá um cristão devoto ser chamado de fundamentalista cristão? Ou será apenas um louco, como tenho visto escrito? Se um cristão que mata dezenas de pessoas é apenas um louco, um terrorista islâmico também não deverá ser considerado apenas como tal? E não me falem em motivações ideológicas ou políticas; um bombista suicida islâmico é tão motivado politicamente como um neonazi que decide plantar uma bomba em edifícios civis. Estamos mais bem preparados para lidar e, no fundo, aceitar, a ameaça estrangeira, do que a ameaça interna, dos nossos "brancos", dos "noruegueses de gema" (como apareceu na declaração da polícia noruegesa). É nestas alturas, de pasmo perante o horror, que se revelam os preconceitos do mundo ocidental em relação ao "outro". Poderia servir de lição, mas sabemos que isso não vai acontecer. As pessoas não mudam.

Legitimidades

Sérgio Lavos, 22.07.11

 

Não sabemos ainda quem atacou a Noruega. Não sabemos quais as razões. Terão sido terroristas. Mas há já quem se regozije com a mortandade. Quando começamos a aplaudir a morte de inocentes, perdemos toda a humanidade, e sobretudo a legitimidade para criticar imperialismos e assassinatos alheios. Vergonhoso.

 

Adenda: também gostaria de ver a reacção de Renato Teixeira se se vier a descobrir que o atentado foi um acto praticado por grupos de extrema-direita.

Escolher o momento

Daniel Oliveira, 19.03.08
Alegadamente, Osama bin Laden terá ameaçado a Europa caso cartoons ofensivos para os muçulmanos voltem a ser publicados. Definitivamente, o homem é o melhor publicitário deste material. Precisa dele e do confronto. No dia em que Mundo ia recordar o desastre do Iraque (em o que o eixo xiita o ofuscou e os Estados Unidos desbarataram as simpatias que conquistaram a 11 de Setembro), a figura de Bin Laden (ele mesmo ou apenas a sua sombra) volta ao palco. Melhor para o fundamentalismo, para Bush e para os defensores do Choque de Civilizações. Aqui, neste meu cantinho, é o Iraque que vou recordar.

Viva la muerte!

Daniel Oliveira, 08.03.08
Não querendo ficar atrás dos terroristas islâmicos, os terroristas da ETA mataram, no último dia de campanha, um vereador socialista. A tiro. Em frente à sua mulher e à sua filha. Não sei o que pretendiam. Beneficiar o PP, trazendo o assunto do processo negocial para a memória dos eleitores e provando a suposta fraqueza de Zapatero? Beneficiar o PSOE, criando uma vítima ? Punir o PSOE pelo fim das negociações? Não parece que seja nada tão elaborado, numa organização sem cúpula política. Mais prosaico: mostrarem que existem na sua absoluta imoralidade; que seja deles que se fala antes do voto;  que seja por causa deles que se decide o voto. Assim fazem a sua prova de vida os criminosos políticos: com morte.